A organização das classes de aula por equipes de cinco alunos, preconizada pela Filosofia Espírita da Educação, já representa intenso fomento da interação sócioescolar (vide Cooperação ou Individualismo – Filosofia do Método Pedagógico)”.119
6.2.6 – Aproveitamento do Fator Meio Social.
“Na educação é preciso considerar que o fator meio social exerce mais intensamente sua ação sobre o educando nos estágios intermediários da vida, enfraquecendo nas primeiras e últimas fases da existência. O pedagogo, o didata e o educador devem, por isso mesmo, utilizar este período intermediário para amortecerem nos seus educandos os ímpetos antissociais e fomentar os naturais predicados de socialidade humanos”.120
7 - O QUE SÃO A CRIANÇA E O ADOLESCENTE?
“[...] A infância nem sempre foi compreendida do mesmo modo. O entendimento que se tem tido dela tem variado no tempo e no suceder das escolas filosóficas, como também de acordo com a antropologia cultural de cada povo.
Dentro deste quadro de tantas variáveis, o que significam a infância e a adolescência para a Doutrina dos Espíritos? A criança realmente é inocente? Para que a sua fragilidade? O conceito de infância é unívoco, equívoco ou análogo, para o pensador espírita? O que vem a ser infância do Espírito na extensão de sua existência total?
Pretendemos, antes, exumar a soterrada controvérsia do ser ou não ser a criança um adulto em miniatura. Pô-la novamente em causa, em face das novas luzes que a Doutrina dos Espíritos poderá lançar sobre ela, num enfoque que as filosofias da educação anteriores jamais poderiam imaginar”. [...]121
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119 Idem, p. 250 -251.
120 Idem, p. 251.
121 Idem, p. 255.
7.1 - SOLUÇÃO DA FILOSOFIA ESPÍRITA DA EDUCAÇÃO:
7.1.1 – Os Dois Sentidos da Condição de Adulto.
“A questão de ser ou não ser a criança um adulto em miniatura pode ser desenvolvida de modo muito surpreendente e original pela Filosofia Espírita da Educação, que nela introduz algumas variáveis.
O conceito de adulto, para o filósofo espírita, tem dois sentidos: Espírito adulto e corpo físico adulto. Conforme se verifica em (LE – Q. 191ª -2): „a vida do Espírito, em seu conjunto, apresenta as mesmas fases que observamos na vida corporal. Ele passa gradualmente do estado de embrião ao de infância, para chegar, percorrendo sucessivos períodos, ao de adulto, que é o da perfeição, com a diferença de que, para o Espírito não há declínio, nem decrepitude, como na vida corporal; que sua vida, que teve um começo, não terá um fim; que imenso tempo lhe é necessário, do nosso ponto de vista, para passar da infância espírita para o completo desenvolvimento [...]’. Em (LE – Q. 607a) descortinamos todo o panorama dos estágios do Espírito: infância – adolescência – juventude e madureza. As questões (LE – Q. 127 e 790) citam as fases de infância e madureza; e infância e adolescência em (CI – VIII, 11). As passagens (LE – Q. 115ª, 189, 190 e 564) insistem em destacar a infância do Espírito logo após a sua criação. E, antes dessa infância, o Espírito estaria em estado de embrião, conforme (LE – Q. 191ª – 2) e (CI – 1ª, IX, 20).
Não se trata de linguagem figurada, como se poderia pensar. Basta reler com atenção (LE – Q. 191ª -2). Entre outras razões, porque em ambas as infâncias – a biológica e a espiritual (LE – Q.189 e 564) - predominam os instintos; e, ainda, pela ignorância e imperfeições (LE – Q. 115ª). Há, porém, uma diferença fundamental entre os dois perfis evolutivos. O Espírito nunca é submetido à velhice, ao depauperamento, com é o corpo físico. A madureza é o estágio final e permanente do Espírito imortal, conservando toda a perfeição relativa penosamente conquistada.
Em princípio, pode um Espírito adulto abrigar-se num envoltório físico infantil (LE – Q. 379), desde que ainda se ache submetido à corrente das encarnações. Em contrapartida, também é possível que a veste somática envelhecida contenha um Espírito infantil. Talvez não no nosso planeta, cujos habitantes são Espíritos que já alcançaram um certo grau evolutivo além do da infância espiritual (vide LE – Q. 190).
Se, por um lado, a educação moderna, mais nitidamente a partir de Rousseau, não considera a criança um adulto em miniatura, por outro lado, a educação espírita terá que admitir que determinadas crianças sejam adultos. “Isto é, Espíritos evoluídos inscritos temporariamente em organismo infantil”.122
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122 Idem, p. 261 – 263.
7.1.2 – Relação Ser – Criança / Ser – Adulto (Relação Vitoespiritual)123.
“A Filosofia Espirita da Educação introduz um sério complicador no problema da relação ser - criança / ser - adulto, transbordando – ou pelo menos amplificando – o campo da Psicologia Genética ou Evolutiva, dando-lhe uma terceira dimensão. Estamos diante de um fato fulgurante, até agora despercebido ou desprezado pela Psicologia Educacional, mas que ela terá de enfrentar mais cedo ou mais tarde. Somente incorporando ao seu domínio essa relação vitoespiritual, com seus fascinantes parâmetros, poderá a educação atingir patamares superiores de compreensão da criança e, por via de consequência, sair do imobilismo em que se cristalizou”124.
“Terá, para isso, que estudar as consequências pedagógicas dessa relação, estabelecendo uma teoria e, no campo prático, no campo prático, determinar,
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123 “O ser, em ambos os membros da relação, deve ser considerado como verbo e não substantivo”. (Nota do autor).
124 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 263.
125 Idem, p. 262.
por processos técnicos, para cada educando, a composição etária físicoespiritual com o seu efeito multiplicador.
Justamente nesse encargo, a Filosofia de Educação e Pedagogia Espíritas, pelas suas credenciais de legatárias da Terceira Revelação nessa área, dela recebem a outorga e a investidura para iluminarem a senda a ser percorrida pela Psicologia Educacional Espírita. Rasgam, assim, juntas e promissoramente, horizontes muito mais longínquos para a educação”.126
7.1.3 – Manifestação Física da Idade Espiritual.
“O Espírito, adulto, jovem ou criança, em regra, só se apresenta na vida física, no seu verdadeiro grau ou idade espiritual, a partir daquele ponto da existência que denominados idade axial. É o que nos indicam as passagens da Codificação (LE – Q. 385 – 1, 2 e 4), (EE – VIII, 4 – 2 e 4).
Nesse ponto crítico, em torno de 15 a 20 anos de idade física, a idade espiritual do encarnado se manifesta em quase toda a sua autenticidade. Mostra a sua alma como é verdadeiramente: criança, adolescente, jovem ou adulto espirituais. Assim acontece porque é nessa linha eixo que aflora do perispírito a massa crítica arcaica até então reprimida das virtualidades relativas, das insuficiências e das imperfeições.
Ao mesmo tempo, nessa transição ou estágio, é retomado o processo de redução, muito lento, aliás, das virtualidades absolutas. Estas se atualizam pela sua transformação em relativas para, como tais reaparecerem na encarnação seguinte, já incorporadas definitivamente, porque atualizadas, ao patrimônio anímico consolidado.
Em cada experiência ou vida física, seu houver um mínimo de progresso espiritual, seguramente se processou também um mínimo de conversão de virtualidades absolutas em relativas. É uma pequena atualização do potencial total do Espírito. Ambas são transformações ou reduções. Duas faces do mesmo passo dado adiante no prosseguimento da marcha ascensional do Espírito. É o próprio processus educativo em marcha”.127
7.1.4 – Funcionalidade Espiritual da Infância.
1ª) Infância como Transição.
“A infância para o espírita é transição; o vau de passagem de uma para outra existência física. As outras correntes religiosas e filosóficas consideram a infância como um estado inicial absoluto do ser humano e, por isso, jamais poderão entendê-la. Ficam perplexos diante da diversidade de formas, de interesses, graus de inteligência, de bondade ou maldade, de qualidades e pendores com que se apresentam as crianças. Em (LE – Q. 199ª – 3), o Codificador pergunta: „Donde, porém, provirão instintos tão diversos em
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126 Idem, p. 263 -264.
127 Idem, p. 264.
crianças da mesma idade, educadas em condições idênticas e sujeitas às mesmas influências?‟ Mesmo valendo-se da hereditariedade biológica, do meio doméstico e social como fatores diversificadores e modeladores da individualidade, não conseguem explicar o mistério da puerícia – pueri misterium, quase ininteligível, „fascinans, numinoso‟128 - por ultrapassar a ciência oficial e transcender à sua visão meramente terrena.
“A Filosofia Espírita encara-a como um estágio intermediário, in transitu, de passagem, a cujos condicionamentos o Espírito em sua marcha progressiva foi submetido um sem número de vezes”.129
2ª) Infância como Repouso do Espírito Reencarnante.
“Poderíamos até expressar que a infância seja uma convalescença do transtorno, da árdua travessia do Espírito, da espiritualidade para nova investidura na carne; do mergulho na matéria. O nascimento implica num traumatismo, conforme estudo psicanalítico de OTTO RANK130. A gestação seria a fonte derradeira do inconsciente psíquico e o fenômeno traumático do nascimento, o „último substrato biológico concebível da vida psíquica, o núcleo mesmo do inconsciente” 131. Assim mesmo, RANK foi o psicanalista que remontou mais profundamente na busca das fontes profundamente na busca das fontes primordiais do inconsciente. Mais um passo e teria alcançado as verdadeiras matrizes: as vidas pretéritas e o perispírito.
O renascimento é traumático. O Espírito reencarnante é submetido a vários processos de magnetização, de contração do perispírito (GE – XI,18), de esquecimento do passado. Uma verdadeira lavagem mental, resultando na perturbação de que é acometido (LE – Q. 382). , (LE – Q. 380), (EE – VIII, 4 – 2). Por isso mesmo, requer um período transitório de repouso (LE – Q. 382). Aí está a primeira função da infância: „Esse estado corresponde a uma necessidade, está na ordem da Natureza e de acordo com as vistas da Providência. É um período de repouso do Espírito’.
3ª) Plasticidade à Educação.
“A maleabilidade à ação educativa dos pais, dos primeiros mestres, é a segunda função, de conformidade com aquela ordem da natureza: „Encarnado, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante este período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo‟ (LE – Q. 383).
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128 “Adaptação dos qualificativos de RUDOLF OTTO, aplicados ao sagrado e a Deus” (Nota do autor).
129 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 264 – 265.
130 Otto Rank (1884-1939) era um estudante de 21 anos quando encontrou Sigmund Freud. Rank seguiu adiante para fazer um doutorado em psicologia e por fim tornar-se par de Freud. Ele via cada pessoa como um artista cuja tarefa final é a criação de uma personalidade individual. Para Rank, o neurótico é um artiste manque, uma pessoa cujo forte impulso criativo é frustrado pelo uso negativo da vontade. Disponível em: http://www.psiquiatriageral.com.br/psicoterapia/otto.html. Acesso 03/10/2011.
131 RANK, Otto: “O Traumatismo do Nascimento”, p. 11. (Ed.Marisa, RJ – 1934) - Nota do Autor.
A (LE – Q. 385 – 7) vem em reforço desse esclarecimento, com mais detalhes: „[...] a delicadeza da idade infantil os torna brandos, acessíveis aos conselhos da experiência e dos que devam fazê-lo progredir. Nessa fase é que se lhes pode reformar os caracteres e reprimir os maus pendores‟. Observe-se no final dessa questão o verbo reformar como adequa-se corretamente à idéia de educação espírita: não formação, mas reforma, dada a preexistência do Espírito. A (LE – Q. 798) confirma o pensamento: „Só a educação poderá reformar os homens‟.
A plasticidade do Espírito na puerícia é ainda confirmada em (LE – Q. 582) e (EE – VIII, 4 – 3); „[...] durante o tempo em que seus instintos se conservam amodorrados, ele, o Espírito, é mais maleável e, por isso mesmo, mais acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza e de fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa que incumbe aos pais‟.” 132
4ª) Atratividade.
“Se só o amor reconstrói e edifica, a criança, desde o início, deve ser amada e, para isso, necessita atrair esse desvelo e ternura dos seus pais. A fraqueza do ser juvenil e a sua aparente inocência são os recursos eminentes da Providência. Segundo „as leis que regem o Universo‟, a captação desse amor é indispensável ao progresso do Espírito recém encarnado. É para esse mesmo efeito que o reencarnante entra em perturbação, perde a consciência de si mesmo e esquece o seu passado e, ainda, desce à carne em corpo físico transitoriamente minúsculo e frágil. É o que nos esclarece (EE – VIII, 4): „P – Pois que o espírito da criança já viveu, por que não se mostra, desde o nascimento, tal qual é? R – Tudo é sábio nas obras de Deus. A criança necessita de cuidados especiais, que somente a ternura materna lhe pode dispensar, ternura que se acresce da fraqueza e da ingenuidade da criança. Para uma mãe, seu filho é sempre um anjo e assim era preciso que fosse para lhe cativar a solicitude. Ela na houvera podido ter-lhe o mesmo devotamento se, em vez da graça ingênua, deparasse nele, sob os traços infantis, um caráter viril e as idéias de um adulto e, ainda menos, se lhe viesse a conhecer o passado‟; e mais adiante, „o Espírito, pois, enverga temporariamente a túnica da inocência [...]‟. Imobilizando-se a carga negativa genótipoespiritual contida na auto-herança, o Espírito encarnado, nas primeiras idades, vai progredindo an passant.
A forma aparente da inocência das crianças é reiterada em (LE – Q. 385 – 1 e 4): „Não conheceis o que a inocência das crianças oculta. Não sabeis o que elas são, nem o que foram, nem o que serão. Contudo, afeição lhes tendes, as acariciais como se fossem parcelas de vós mesmos [...]; as crianças são seres que Deus manda a novas existências. Para que lhes possam imputar excessiva severidade, dá-lhes Ele os aspectos da inocência. Ainda quando se trata de uma criança de maus pendores, cobre-se-lhe as más ações com a capa da
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132 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 265 – 266.
inocência. Essa inocência não constitui superioridade real em relação ao que eram antes, não [...]. Não foi, todavia, por elas somente, que Deus lhes deu esse aspecto de inocência; foi também e, sobretudo, por seus pais, de cujo amor necessita a fraqueza que a caracteriza. Ora, esse amor se enfraqueceria grandemente à vista de um caráter áspero e intratável, ao passo que, julgando seus filhos bons e dóceis, os pais lhes dedicam toda a afeição e as cercam dos mais minuciosos cuidados‟.
Em (LE – Q. 199a – 3) deparamos novamente com a inocência putativa ou suposta da criança: „[...] não é racional considerar-se a infância como um estado normal de inocência. Não se vêem tantas crianças dotadas dos piores instintos, numa idade em que ainda nenhuma influência pode ter tido a educação? Algumas não há que parecem trazer do berço a astúcia, a felonia a perfpidia, até pendor para o roubo e para o assassínio, não obstante os bons exemplos que de todos os lados se lhe dão?‟.
Reitera ainda a Codificação: „[...] já a criancinha, não havendo podido ainda manifestar nenhuma tendência perversa, nos apresenta a imagem da inocência e da candura‟ (EE – VIII, 3 – 2).
Essas passagens da Codificação informam a idéia que Humberto Mariotti denominou de teoria aparencial da criança: „A Filosofia Espírita da Educação afirma, como premissa fundamental pedagógico educacional, a teoria aparencial da criança, visto que por trás de cada criança encontra-se o ser com todos os seus graus de evolução palingenésica. Para a educação espírita, a infância é apenas uma etapa fugaz e cambiante e não uma condição estável, espiritualmente considerada‟.133
„A teoria aparencial da criança rasga o último véu da Psicologia Infantil e da Adolescência, revelando que precisamos enfrentar essas criaturas inocentes com maior realismo. Porque, se elas são inocentes apenas na aparência e escondem sua realidade íntima nas formas físicas em desenvolvimento, manda a boa lógica que as tratemos com mais desembaraço. [...] A teoria aparencial é evidentemente a base sobre a qual devemos desenvolver a Psicologia Evolutiva da Criança e do Adolescente e a Psicologia Espírita da Educação. Partindo do que podemos chamar o fato aparencial, que decorre da lei da reencarnação, temos que encarar o desenvolvimento infantil como um processo psicológico de afloramento, não só de disposições culturais, mas também de conteúdos. Por trás da aparência de tabula rasa, de mente desprovida de qualquer conhecimento – pretensiosa herança do empirismo inglês – sabemos que existem profundezas da memória espiritual, da consciência subliminar de que tratou Frederic Myers. E, apoiados no trabalho modelar de Myers e nas conquistas da Psicanálise e da Parapsicologia, podemos, adicionado a essas contribuições o instrumental espírita, aplicar na educação um novo tipo de maiêutica socrática para arrancar a verdade do fundo do poço‟.134
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133 Mariotti, Humberto, in revista Educação Espírita, nº 4, p. 22 - 23 – EDICEL Editora, São Paulo, 1973.
134 Simonetti, J. Amaral, in revista Educação Espírita, nº 5, p. 70 - 72– EDICEL Editora, São Paulo, 1973.
Alinhamos as seguintes Expressões encontradas na Codificação para a aparência da criança: túnica da inocência (EE – VIII, 4, todo); capa de inconsciência (LE – Q. 385, 2 – 4); aspecto da inocência (Idem); imagem da inocência (EE – VIII, 3 -2).
Concluindo: „A infância não é só útil, necessária e indispensável, mas também consequência natural das leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo‟ (LE – Q. 385. 8)”.135
7.1.5 – Funcionalidade Espiritual da Adolescência.
“O conceito espírita de adolescência é extraído de (LE – Q. 385). A adolescência é o período de desenvolvimento orgânico e mental do Espírito encarnado, que segue ao da infância e, após o qual, esse „Espírito retoma a natureza que lhe é própria e se mostra qual era‟ na encarnação precedente. Surge o seu „caráter real e individual em toda a sua nudez‟. A adolescência encerra-se em torno da idade axial, iniciando a juventude e o estágio de abertura do Espírito, quando se manifesta a carga auto-hereditária.136
Na adolescência, a plasticidade à heteroeducação vai decrescendo; o floramento das virtualidades relativas se consuma para a apresentação do Espírito no palco da vida despido dos véus da inocência e da fragilidade. Portanto, para o Espírito,a adolescência é o progressivo e indispensável desvelamento daquilo que foi oportuna e zelosamente encoberto pela Providência no período da infância, em conformidade com „as leis leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo‟ (LE – Q. 385. 8). Enquanto a infância é opaca, o final da adolescência é luminoso, transparente, em relação à condição do Espírito reencarnante. ”137
7.1.6 – Redutibilidade do Período de Infância e a Educação Libertária.
“Já desenvolvemos essa teoria, devidamente fundamentados na Codificação Kardeciana: (LE – Q. 188, nota 1 – 4), (EE – III, 9 – 2).
Eminentes pedagogos têm-se pronunciado a favor da educação libertária. Assim, TOLSTOI, HELLEN KEY, GURLITT e A. S. NEIL, expoentes da liberdade total do educando.
Vamos, aqui, lançar uma hipótese que alguns podem considerar como arrojada. O pensamento que acometeu esses pedagogos não seria a
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135 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 266 – 268.
136 Ver quadro p. 38.
137 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 268.
antecipação, um eco em sentido contrário, a premonição das condições da criança nos mundos superiores? (LE – Q. 188, nota 1 – 4) e (EE - III, 9 – 2). Não seria a visão do reduzido período da infância nesses mundos, nos quais as crianças não são mais obtusas como no nosso orbe (LE – Q. 183) e, por isso mesmo, mais responsáveis e conscientes? A educação radicalmente libertária não seria, portanto delírio de pedagogos, mas se sentiram eles invencivelmente atraídos pela antevisão de um futuro, infelizmente ainda remoto. A liberdade interior, facultada pela elevação do Espírito naqueles mundos, possibilita e recomenda a concessão de maior liberdade em matéria de educação, a limites que jamais poderíamos imaginar no nosso planeta. O império do Espírito sobre a carne, impulsos, instintos e paixões [...] mesmo na idade infantil, credencia a educação libertária (mas só nesse caso), sem nenhum receio dos discutíveis resultados que ela tem causado no nível terreno, em quase todas as suas aplicações, conforme nos tem informado a literatura pedagógica.
A esse raciocínio poder-se-ia objetar que é justamente nas raças e povos menos evoluídos, como os primitivos, que se verifica a precocidade biológica e mental das crianças e adolescentes. Poderia esse fato antropológico vulnerar a nossa propositura? Respondendo: a Natureza, sábia como é, atende às necessidades deles mais cedo porque vivem principalmente para assegurar a sobrevivência e perpetuação da raça. A civilização, diferentemente, cria novas necessidades (LE – Q.795 – 2) que vão se acumulando: os imperativos morais, culturais, políticos, econômicos, profissionais, etc. Para essas necessidades, a precocidade dos povos primitivos é quase nula. É o que nos informa (EE – XXV, 2 -2): „na infância da Humanidade o homem só aplica a inteligência à cata do alimento, dos meios de se preservar das intempéries e de se defender dos seus inimigos‟.
Por esse lote de suportes doutrinários, entendemos que a Codificação Espírita pode absorver a nossa tese: de que as tentativas pedagógicas de educação libertária são premonições da liberdade desfrutada pelas crianças nos mundos superiores”.138
7.1.7 – Idade Espiritual da Humanidade.
“Confrontando algumas alusões da Codificação Espírita, podemos concluir que a Humanidade terrena transita pela faixa etária espiritual da adolescência. Vejamos. Esse estágio situa-se entre a infância e a juventude espirituais. Ora, não poderíamos estar na juventude porque nessa idade já os Espíritos não estão sujeitos à roda das reencarnações: „a união da alma com o corpo, em ser necessária aos seus primeiros progressos, só se opera no período que poderemos classificar como de sua infância e adolescência, atingido, porém, que seja, um certo grau de perfeição e desmaterialização, essa união é prescindível, o progresso faz-se na sua vida de Espírito [...]‟ (CI – 1ª, VIII, 11).
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138 Idem, p. 268 -269.
Ora, a humanidade terrena também não está na infância espiritual; „A superioridade da inteligência, em grande número de seus habitantes, indica que a Terra não é um mundo primitivo, destinado \á encarnação de Espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador‟ (EE – III, 13).
As almas dos selvagens da Terra já emergiram da infância pura e alcançaram um grau intermediário entre ela e a adolescência denominado infância relativa (LE – Q. 191).
Certos indicadores nos levam a admitir que nessa idade de adolescência, em que se acha a humanidade terrena, as almas estejam de um modo geral, dominadas pelas sensações que, geradas pela transformação ou abrandamento de alguns instintos, ordenam-se, num futuro ainda longínquo, a se sublimarem em sentimentos puros: „Em sua origem o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor [...]‟ (EE – XI, 8).
„A fim de avançar para a meta, tem a criatura que vencer os instintos, em proveito dos sentimentos, isto é, que aperfeiçoar esses últimos, sufocando os germens latentes da matéria. Os instintos são a germinação e os embriões do sentimento; trazem consigo o progresso, como a glande encerra em si o carvalho‟ (EE – XI, 8 – 3)”.140
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139 Idem, p. 170.
140 Idem, p. 269 - 271.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
ESTUDO DA OBRA: FILOSOFIA ESPÍRITA DA EDUCAÇÃO - PARTE 4
5.1.8 – Núcleo Rígido do Espírito.
“Em cada encarnação, a educabilidade é restrita à parte dúctil do Espírito. A educação, entretanto, não pode vencer o núcleo ainda rígido, endurecido, desse Espírito. A imagem material que podemos apresentar dessa condição é a de uma massa de argila plástica envolvendo um núcleo de granito que se mantém resistente aos apelos da educação durante todo o transcurso de uma existência física”.97
5.1.9 – O Espírito com Herdeiro de Si Mesmo.
“O Espírito é herdeiro de si mesmo. Mais do que dos seus genitores biológicos, porque ao reencarnar traz uma alentada bagagem de idéias inatas, experiências e pendores, em proporções definidas de virtudes e imperfeições. É um legado de si próprio, de suas remotas lutas, vitórias e fracassos”.98
5.2 – CONSEQUÊNCIAS PEDAGÓGICAS DA SOLUÇÃO ESPÍRITA:
5.2.1 – Expectativa Limitada.
“O educador espírita deve estar prevenido de que não deve esperar demasiado de seu educando em resultados manifestos na encarnação considerada, para não se impacientar nem se frustrar. Antes, deve perseverar e considerar, no amplíssimo espectro do roteiro espiritual, a sua valiosa e irrecusável contribuição na construção das almas imortais e perfeitas”.99
5.2.2 – Exigências Proporcionais.
“Nem o educador espírita, nem a instituição educacional, podem exigir do educando o que está fora do seu programa reencarnatório. Por isso, todo educador espírita deve ser dotado de grande sensibilidade e profunda intuição espiritual para identificar, em cada aluno, aquele núcleo rígido e resistente presumido pela Filosofia Espírita da Educação”.100
5.2.3 – Preparação do Educador.
“O mestre espírita não pode ser formado pelos atuais padrões adotados pelas nossas faculdades de filosofia e [pedagogia]. Não seguem elas nenhuma filosofia da educação e muito menos a espírita.O educador espírita só poderá sê-lo se receber uma formação especial pelo menos em um curso de pósgraduação que lhe [habilite a reconhecer e lidar com] as realidades e condições do Espírito do educando. Os seus poderes intuitivos, e quiçá até mediúnicos, terão que ser muito bem desenvolvidos para, de um certo modo e
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97 Idem, p. 219.
98 Idem, p. 220.
99 Idem, p. 222.
100 Idem, p. 222.
num certo grau, poder o educador considerar e intuir objetivamente – e não apenas como uma tese – o [reencarnado] em cada um de seus discípulos individualmente considerados”.101
5.2.4 – Identificação dos Pendores Inatos.
“Com o auxílio da Psicologia, Biologia e Sociologia Educacionais [...] o educador deverá esforçar-se para assinalar as tendências inatas desejáveis de cada educando, para dinamizá-las e ativá-las, trazendo ao nível da consciência. Ao revés, tratamento diferente para as tendências que representarem inferioridade, cujas expressões devem ser reduzidas”.102
5.2.5 – Sistema de Avaliação.
“Abolição de qualquer sistema de avaliação escolar (intelectual, disciplinar ou moral) com base na heterossuperação. A Filosofia da Educação Espírita demonstrou-nos, à saciedade, a extensa e variada gama de níveis espirituais. Seria tão aberrante julgar um educando pelo outro quanto confrontar um aluno do curso (fundamental) com outro de grau universitário. Somente a autossuperação e o seu vetor, a autoemulação, poderão fundamentar um sistema de avaliação escolar espírita”.
O homem não procura elevar-se acima do homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se. Seu objetivo é galgar a categoria dos Espíritos puros, não lhe constituindo um tormento esse desejo, porém uma ambição nobre, que o induz a estudar com ardor para os igualar (EE – III, 10).103
5.2.6 – Profilaxia Pedagógica do Orgulho e da Vaidade.
“Esses traços da natureza humana obstruem o progresso do Espírito, porque comprometem a educabilidade. São barreiras dispostas entre o educador e a plasticidade do educando. Cumpre removê-las ou reduzi-las. Técnicas deverão ser inovadas e instauradas, não frias e materiais, mas tendo sempre por suporte o amor e a caridade sempre existente no âmago do homem [...] À Psicologia Educacional Espírita cabe instrumentar-se para estudar a gênese psicológicoespiritual do egoísmo, oriundo do instinto de conservação através do orgulho e cujos últimos efeitos são estas suas expressões tangíveis: a miséria, os conflitos sociais e o estacionamento espiritual pela atrofia do Espírito. O vislumbre do panorama das vidas sucessivas é um poderoso redutor na profilaxia do orgulho e provoca fissuras no seu complexo estrutural.
Naquele que nada vê adiante de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja e o orgulho fica sem contrapeso (OP – p. 228).
Em todo o capítulo 23 (O Egoísmo e o Orgulho) de Obras Póstumas, encontrarão o didata e o educador espíritas magnífico catálogo de sugestões e
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101 Idem, p. 223.
102 Idem, p. 223.
103 Idem, p. 223.
de idéias condutoras. Nessa mesma obra, encontrará o leitor a esperança de um redutor pedagógico do egoísmo, ou seja, a cooperação em trabalhos escolares. Por isso, a cooperação deverá elevar-se a um eminentíssimo status no âmbito da educação espírita. ”104
5.2.7 – Teoria da Maturação Espiritual.
“Se a natureza não dá saltos, o Espírito também não. Não é exigível do educando, agora considerado na perspectiva de toda sua existência espiritual, procedimentos, valores, conhecimentos, virtudes, para os quais ainda não amadureceu. [...] É a maturação que cadencia o desenvolvimento do Espírito e se manifesta sob a forma de gradação que limita (programa) a educabilidade. Essa teoria é a contrapartida, a nível genéticoespiritual, da teoria da maturação ontogênica do ser humano reencarnado, devida a Gesell105, Piaget e outros”.
6 – O QUE EDUCA O EDUCANDO?
Filósofos, pedagogos e psicólogos, têm polemizado sobre os fatores que mais atuam sobre o educando [...] Fatores internos, hereditários e psicológicos? Ou externos, como o meio físico, ambiente social, experiências e educação?
“Podemos classificar em três grupos os pensadores que elaboraram teorias sobre o desenvolvimento mental do homem: 1º) os inatistas, com suas idéias do primado dos fatores internos; 2º) os empiristas, defensores dos fatores externos; 3º) os partidários da interação ou convergência dos fatores internos e externos”. 106
6.1 – SOLUÇÃO DA FILOSOFIA ESPÍRITA DA EDUCAÇÃO:
6.1.1 – Convergência e Interação dos Três Fatores.
“A Filosofia Espírita da Educação recolhe a idéia de que, na formação humana, concorrem com o educador (sua ação e influência pessoais) os fatores impessoais: herança, meio e educação (como processo). [...] O meio físico e o ambiente social exercem forte pressão sobre a personalidade e caráter do educando, uma vez que não pode ele, nem deve, viver no insulamento (LE – Q 766 a 772): a vida social é indispensável ao seu aperfeiçoamento. Apesar de o Espírito encarnado estar submetido a essa trama de vetores, não está a ela subjugado inexoravelmente. Sofre-lhe a influência, por vezes penosa, para poder desenvolver a sua capacidade de resistência, numa ascese espiritual, até o domínio total do Espírito sobre a matéria. Nesse exercício, despoja-se de suas imperfeições e, por isso, a prova cármica oferecida pelos meios físico e social assume papel de alta relevância educativa”. 107
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104 Idem, p. 224.
105 Idem, p. 224 -225.
106 Idem, p. 229.
107 Idem, p. 241.
6.1.2 – A Auto-hereditariedade.
“A herança do passado pessoal (de si mesmo), imanente, manifesta-se nas idéias gerais, nos valores e comportamentos do educando sob a forma de tendências, intuições e consciência, formando o que se poderia chamar de personalidade arcaica, de penas e alegrias constituídas. Além dessa herança espiritual, o Espírito encarnado recebe o influxo da carga genética orgânica que pode facilitar ou embaraçar sua manifestação”.108
6.1.3 – A Ontogênese Psíquica Recapitula a Espiritogênese.
“O termo recapitulação nesse estudo é adotado no sentido particular de reação do passado anímico sobre o presente, despontando gradativamente sob formas esvaziadas de conteúdos materiais. É o conjunto das tendências, intuições, resoluções e experiências do pretérito; metamorfoses dos atos, fatos e episódios de outras encarnações. Como nos indica (EE – VIII, 4 - 3): A partir do nascimento, suas idéias [Espírito encarnado] tomam gradualmente impulso, à medida que os órgãos se desenvolvem. Equivale a dizer que a ontogênese recapitula a espiritogênese já realizada. Mas, uma vez completada a reminiscência espiritual e inconsciente, ultrapassa-a, aditando em cada existência alguma perfeição que o Espírito não havia conquistado. Completa, assim, ao termo da evolução, o ciclo: instintos + sensações + sentimentos+ amor (EE – XI, 8), através dos estágios infância + adolescência + juventude + madureza (LE – Q. 607a). Mas, o ser encarnado não recapitula mentalmente os estágios psíquicos da espécie, como pretendiam os partidários da lei biogenética. Nem recorda, o que é óbvio, os estágios que o Espírito ainda não vivenciou. A extensão da recapitulação é , assim, proporcionada à extensão da existência (espiritogênese) que o Espírito já percorreu”.109
6.1.4 – Convergência dos Fatores Internos e Externos.
A Filosofia Espírita da Educação resiste em reconhecer o primado de qualquer um desses fatores de modo permanente e para todos os Espíritos. “A predominância deste ou daquele fator é transeunte. Em certos Espíritos, em determinadas encarnações, e, nestas mesmas, em determinados períodos, pode atuar de modo mais decisivo um determinado fator”.110
6.1.5 – Períodos de Predominância de Cada Um dos Três Fatores.
“Nos primeiros anos de vida, até o desenvolvimento integral do seu organismo, o educando recapitula e atualiza (potência ato)111 as perfeições já realizadas em outras encarnações, até o grau que alcançará na última vida terrena (LE –Q.218ª, final), (EE – V ,11 – 4)”.
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108 Idem.
109 Idem, p. 242.
110 Idem.
111 Segundo o autor, “estamos adaptando ao nosso estudo a teoria aristotélica do ato e potência”. Nota de rodapé, p.242.
“Nessa primeira fase, é mais preponderante o fator educação (LE – Q. 383), porque a carga autogenética espiritual está latente. Numa segunda fase, no fim da adolescência, a potência passa ao ato e o „Espírito retorna à natureza que lhe é própria e se mostra tal qual era‟ (LE – Q.385). A partir desse ponto, as suas virtualidades até então reprimidas passam a atuar vigorosamente, igualando a força da educação e tendendo a sobrepujá-la. O ambiente social também passa a atuar desde que a criança toma consciência dele e de seus influxos. Temos aqui uma regra muito geral, um esquema sujeito a constantes oscilações e defasagens particularíssimas de cada educando”.
“Explicando: o Fator Educação é dominante desde o nascimento, quando a plasticidade da criança é mais acentuada (LE – Q. 385, 7), (LE – Q. 582), (EE – VIII, 4 - 3); essa receptividade, com o avanço dos anos, tende a reduzir-se, amortecendo a força da educação. O Fator Hereditariedade – deve ser tomado aqui segundo a concepção espírita, como herança de si mesmo – na fase infantil e da adolescência, permanece em estado de latência, para aflorar e preponderar após a adolescência (LE – Q. 385) e até o final da existência física. O ambiente social, por sua vez, no início pouco influi; depois disso é bastante atuante e termina por se enfraquecer; o fator social requer consciência dele para produzir efeitos mais acentuados no educando, o que não se dá na primeira infância. Por outro lado, na velhice, pela adaptação ao meio presumida como total, o fator social não produz mais modificações acentuadas”.
“Esta é uma conclusão privativa da Filosofia Espírita da Educação, comportando, contudo, análises muito atentas e cautelosas [...]”.112
6.1.6 – Virtualidades Absolutas e Virtualidades Relativas.
“Podemos distinguir dois tipos de virtualidades: as absolutas e as relativas. As absolutas são as que ainda, em nenhuma encarnação, foram realizadas; as relativas são as que já foram realizadas em anteriores encarnações, mas que, na presente, aguardam, em latência, o desenvolvimento orgânico para se manifestar. Um exemplo dessas virtualidades, encontramos em (EE – XIX, 7 – 2), relativamente à conquista da fé; e também em (GE – I, 38 -2) sobre qualidades tanto morais quanto intelectuais”. 113
6.2 – CONSEQUÊNCIAS DA SOLUÇÃO DA ESPÍRITA:
6.2.1 – Idade Axial (mais diretamente endereçada à Psicologia Espírita da Educação). Acompanhar pelo quadro, página38.
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112 Idem, p. 242-243.
113 Idem, p. 244.
“Esta faixa etária poderia também ser chamada de idade eixo (porque nela se engrazam dois sistemas ou estágios), ou ponto morto (porque nela se processa uma mudança de marcha), ou, ainda, área de afloramento (porque nela afloram os predicados até então subjacentes ao Espírito, ou encerra-se esse afloramento). Este eixo baliza o final da adolescência, entre os quinze e vinte anos de idade normalmente (LE –Q.385, 1-4) e inaugura a juventude. Constitui-se uma idade crítica para a Pedagogia e, particularmente, para a Psicologia Educacional Espírita. Este eixo assinala:
- a retomada do Espírito de sua verdadeira natureza (LE – Q. 385), no nível que atingiu na encarnação anterior;
- o encerramento da recapitulação da espiritogênese no subconsciente;
- o fechamento do estágio ou idade da graça educativa;
- a abertura do Espírito à incorporação de novas perfeições e aprimoramento das já conquistadas;
- o início da manifestação consciente da carga autohereditária;
- o aparecimento de mais um limitador da educabilidade constituído pela carga genótipoespiritual na autoherança.
A idade axial, como causa final, atrai e determina todo o desenvolvimento anterior; como causa inicial, condiciona os estágios posteriores. A rigor, não é um eixo, mas antes, uma faixa de transição da adolescência para a juventude, com um eixo central meramente convencional.
A idade axial nem sempre tem uma posição fixa. Varia de indivíduo para indivíduo, de encarnação para encarnação e, até, de um mundo para outro (EE – III, 9 – 2). Esse fenômeno psicogenético poderíamos denominar de deslocamento ou oscilação do meridiano psicopedagógico. Pode situar-se aquém da posição normal (mais ou menos entre quinze e vinte anos) por uma antecipação ou recuo. Também pode posicionar-se além dela por um avanço ou adiamento”.
6.2.2 – Redutibilidade do Período de Infância.
“Todo o cuidado deve ter o pedagogo espírita com suas normas; o didata com suas técnicas; e o educador espírita com sua intuição, improvisação e espírito prático e criador, para evitar avançar o meridiano psicopedagógico. Representaria um atraso no progresso do educando. Se possível e recomendável, deveriam permitir o recuo da idade axial, o que representaria uma aceleração do processo educativo pela antecipação do início da juventude-madureza. Os Espíritos mais evoluídos que habitam mundos superiores ao nosso têm um período de infância bem mais reduzido que o relativo à Terra (LE – Q. 183), (EE – III, 9 – 2). (LE – Q. 188 -4).[...]
Já é reconhecida pela Pedagogia e Psicologia da Aprendizagem a possibilidade de métodos especiais poderem acelerar o desenvolvimento mental dos educandos sem risco do seu equilíbrio. O próprio meio social hodierno concorre poderosamente para esse efeito pelos seus profusos meios de comunicação de massa. [...] A criança de hoje é mais precoce do que as de cinquenta anos atrás. Talvez não espiritualmente. Qual a força endógena que induz infantes e adolescentes a quererem vivenciar antecipadamente idades ulteriores? Tal disposição assemelha-se a uma anteléquia ordenada a um remoto futuro da Humanidade. O condicionamento estrutural psíquico pré determinaria a redução lenta e gradual do período de infância, através de vidas sucessivas e da hierarquia progressiva dos mundos habitados”.114
6.2.3 – Estágio da Graça Educativa.
“Apesar de a educação terrena, convencional e sensorial, só dever encerrar-se com a morte corporal, o maior esforço educativo deve ser desenvolvido nos primeiros anos da vida (LE – Q.383 e 385 – 7) e até o final da adolescência, balizado pela idade axial. Aclamamos este período como o Estágio da Graça Educativa. Isto porque, é nesse período que o educando apresenta as melhores condições de plasticidade, como é reconhecido por todas as pedagogias, inclusive a Espírita. Porém, por que esse estágio da graça se encerra a termo? Por que não se prolonga indefinidamente, como seria desejável? A Pedagogia Espírita descortina aos estudiosos a sua própria e original interpretação: a partir da idade axial, a carga genótipoespiritual, manifestada pela auto hereditariedade (LE – Q. 385), emerge na economia mental do educando como um limitador da educabilidade – o peso do passado anímico. Mas, por outro lado, também pode ampliar a educabilidade: educação gera educação, isto é, promove maiores possibilidades aos esforços educativos ulteriores.
Esse Estágio da Graça assim o é pelo amortecimento de alguns instintos; pelo bloqueio e contenção de maus pendores, sem janelas para o exterior; pelo repouso em que se acha o Espírito reencarnado e, principalmente, pela condição de latência da auto hereditariedade e do seu efeito mais indesejável de limitação da educabilidade acima referido. A Pedagogia Espírita ainda deve considerar a função da adolescência, que é a de preparar o Espírito para „retomar a natureza que lhe é própria e mostrar-se tal qual é‟ (LE – Q. 385).
A infância e a adolescência, de certo modo, prolongam a gestação intrauterina; só após esses dois períodos, o Espírito reencarnante nasce para a nova vida, porque só a partir daí se apresenta tal qual era antes de reencarnar como novo ponto de partida, conforme nos indicam (LE – Q. 218ª, final), (EE – VIII, 4 – 2), (EE – V, 11 – 4) e (QE – 19, 9, final). Corpo e Espírito não nascem, ou melhor, não surgem para a vida no mesmo dia. [...] André Luiz115 considera „que o trabalho completo [reencarnatório], com plena integração [do Espírito] nos elementos físicos, somente se verificará‟ aos sete anos. O período entre a concepção e o renascimento denomina de reencarnação inicial ”.116
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114 Idem, p. 146 -148.
115 Missionários da Luz, PP.219, 220 e 249.
116 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 248 -249.
6.2.4 – Estágio de Abertura do Espírito.
“A partir da idade axial, como linha de partida e também como base de apoio, o Espírito encarnado inicia um processo de progressiva abertura para a conquista de novas perfeições e de aprimoramento das já existentes. O sucesso irá depender do educando (boa vontade, energia, esforço pessoal, etc.), como agente espiritual de não só reprimir os vetores negativos de sua carga genótipoespiritual, como também de reforçar os positivos da sua auto hereditariedade. Assim compreendendo, o pedagogo e o educador espíritas deverão aproveitar essa oportunidade única para poderem distinguir as virtualidades relativas das absolutas. O que será possível, desde que dotado o educador espírita de percepções extrassensoriais ou mesmo mediúnicas.
Essa abertura é como um renascimento do Espírito que estivera, até então, em processo de retomada de suas qualidades e defeitos das encarnações anteriores pela atualização das virtualidades relativas.
Até a idade axial, ele recapitulou antigas lições, se assim nos podemos exprimir. A partir daí renasce, retoma o seu aperfeiçoamento, reenceta a sua marcha evolutiva atualizando alguma virtualidade absoluta.
STANLEY HALL admitia um período de renascimento e outro a ele sucessivo de aquisição e desenvolvimento. É a partir daí que a reencarnação justifica a sua principal razão de ser: o passo adiante que faculta ao Espírito na sua marcha ascendente, a partir desse ponto, pela autoeducação.
Poderíamos dizer que esses acréscimos de novas perfeições seriam semelhantes às mutações da genética biológica. Seriam mais propriamente minimutações, um plus aditado ao patrimônio já conquistado do Espírito na sua rota evolutiva (GE – I, 19-9). Vide ainda (QE –III, 118 -3) e (GE – I, 42, nota 1). As virtualidades relativas predominam no estágio da Graça Educativa, mas continua o seu afloramento com menos intensidade na fase de Abertura do Espírito, na qual as virtualidades absolutas passam a manifestar-se predominantemente.
Poderemos até ensaiar uma proposta [...]: a heteroeducação ordena-se à atualização das virtualidades relativas117, o que ocorre predominantemente no primeiro estágio. A autoeducação endereça-se à atualização das virtualidades absolutas e predomina no segundo estágio. Se o nosso „feeling‟ revelar-nos que a conclusão está correta, o acréscimo de qualidades, o crescimento do Espírito (Espiritogênese) resultaria do esforço todo pessoal do educando pela autoeducação. O mister do educador seria promover o afloramento das virtualidades relativas, isto é, aquelas já efetivadas em reencarnações anteriores e que se acham em estado virtual na encarnação considerada. Resulta daí a seguinte simetrização”:118
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117 Em (GE – I, 38 – 2) encontramos o reconhecimento dessas virtualidades relativas com a denominação de virtude original ou saber original. (Nota do Autor)
118 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 249 -250.
6.2.5 – Sistema Estímulo – Repressão.
“A carga genótipoespiritual contida na auto-herança não é, contudo, homogênea. Nela se hospedam em convivência conflitiva boas e más qualidades, tendências certas e tendências erradas, vícios e virtudes, conhecimento e ignorância, créditos e débitos em conflito permanente pela hegemonia. Daí dois procedimentos serem recomendados: o hormonótico, ou estimulativo, para as boas tendências; e o terapêutico, ou corretivo, para os maus pendores. Somente quando este sistema estiver bem equilibrado, poderá o educando iniciar com segurança o estágio de abertura do Espírito para incorporação de novas qualidades (virtualidades absolutas). Ao revés disso, esta abertura poderá favorecer as más tendências, transformando-se naquilo que poderíamos denominar de contraeducação.
Este tratamento diferenciado para as virtudes e para as imperfeições, ativando as primeiras e reprimindo as segundas (imagem do freio e da aceleração), encontra um reflexo em (LE – Q. 917 – 5): „O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade o é de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver a outra, tal deve ser o alvo de todos os esforços do homem, se quiser assegurar sua felicidade neste mundo, tanto quanto no futuro‟.
Mas, como promover a manifestação da auto-herança para distinguir as boas das más tendências? Pela multiplicação, no ambiente escolar, das oportunidades e atividades que promovam a interação entre os educandos, pela intensificação da vida sócioescolar, porque „A vida social é a pedra de toque das boas e más qualidades‟ (CI – 1º, III, 8). Esta convivência serve ao educador não só para distinguir, como também para desenvolver as boas tendências: „unicamente no contato com os seus semelhantes, nas lutas mais árduas, é que ele [o homem] encontra ensejo de praticá-la [a caridade]. Aquele, pois, que se isola, priva-se voluntariamente do mais poderoso meio de aperfeiçoar-se‟ (EE – XVII, 10 – 5); „a bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo as relações do homem com seus semelhantes‟ (CI – 1ª, III, 8 – 2).
“Em cada encarnação, a educabilidade é restrita à parte dúctil do Espírito. A educação, entretanto, não pode vencer o núcleo ainda rígido, endurecido, desse Espírito. A imagem material que podemos apresentar dessa condição é a de uma massa de argila plástica envolvendo um núcleo de granito que se mantém resistente aos apelos da educação durante todo o transcurso de uma existência física”.97
5.1.9 – O Espírito com Herdeiro de Si Mesmo.
“O Espírito é herdeiro de si mesmo. Mais do que dos seus genitores biológicos, porque ao reencarnar traz uma alentada bagagem de idéias inatas, experiências e pendores, em proporções definidas de virtudes e imperfeições. É um legado de si próprio, de suas remotas lutas, vitórias e fracassos”.98
5.2 – CONSEQUÊNCIAS PEDAGÓGICAS DA SOLUÇÃO ESPÍRITA:
5.2.1 – Expectativa Limitada.
“O educador espírita deve estar prevenido de que não deve esperar demasiado de seu educando em resultados manifestos na encarnação considerada, para não se impacientar nem se frustrar. Antes, deve perseverar e considerar, no amplíssimo espectro do roteiro espiritual, a sua valiosa e irrecusável contribuição na construção das almas imortais e perfeitas”.99
5.2.2 – Exigências Proporcionais.
“Nem o educador espírita, nem a instituição educacional, podem exigir do educando o que está fora do seu programa reencarnatório. Por isso, todo educador espírita deve ser dotado de grande sensibilidade e profunda intuição espiritual para identificar, em cada aluno, aquele núcleo rígido e resistente presumido pela Filosofia Espírita da Educação”.100
5.2.3 – Preparação do Educador.
“O mestre espírita não pode ser formado pelos atuais padrões adotados pelas nossas faculdades de filosofia e [pedagogia]. Não seguem elas nenhuma filosofia da educação e muito menos a espírita.O educador espírita só poderá sê-lo se receber uma formação especial pelo menos em um curso de pósgraduação que lhe [habilite a reconhecer e lidar com] as realidades e condições do Espírito do educando. Os seus poderes intuitivos, e quiçá até mediúnicos, terão que ser muito bem desenvolvidos para, de um certo modo e
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97 Idem, p. 219.
98 Idem, p. 220.
99 Idem, p. 222.
100 Idem, p. 222.
num certo grau, poder o educador considerar e intuir objetivamente – e não apenas como uma tese – o [reencarnado] em cada um de seus discípulos individualmente considerados”.101
5.2.4 – Identificação dos Pendores Inatos.
“Com o auxílio da Psicologia, Biologia e Sociologia Educacionais [...] o educador deverá esforçar-se para assinalar as tendências inatas desejáveis de cada educando, para dinamizá-las e ativá-las, trazendo ao nível da consciência. Ao revés, tratamento diferente para as tendências que representarem inferioridade, cujas expressões devem ser reduzidas”.102
5.2.5 – Sistema de Avaliação.
“Abolição de qualquer sistema de avaliação escolar (intelectual, disciplinar ou moral) com base na heterossuperação. A Filosofia da Educação Espírita demonstrou-nos, à saciedade, a extensa e variada gama de níveis espirituais. Seria tão aberrante julgar um educando pelo outro quanto confrontar um aluno do curso (fundamental) com outro de grau universitário. Somente a autossuperação e o seu vetor, a autoemulação, poderão fundamentar um sistema de avaliação escolar espírita”.
O homem não procura elevar-se acima do homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se. Seu objetivo é galgar a categoria dos Espíritos puros, não lhe constituindo um tormento esse desejo, porém uma ambição nobre, que o induz a estudar com ardor para os igualar (EE – III, 10).103
5.2.6 – Profilaxia Pedagógica do Orgulho e da Vaidade.
“Esses traços da natureza humana obstruem o progresso do Espírito, porque comprometem a educabilidade. São barreiras dispostas entre o educador e a plasticidade do educando. Cumpre removê-las ou reduzi-las. Técnicas deverão ser inovadas e instauradas, não frias e materiais, mas tendo sempre por suporte o amor e a caridade sempre existente no âmago do homem [...] À Psicologia Educacional Espírita cabe instrumentar-se para estudar a gênese psicológicoespiritual do egoísmo, oriundo do instinto de conservação através do orgulho e cujos últimos efeitos são estas suas expressões tangíveis: a miséria, os conflitos sociais e o estacionamento espiritual pela atrofia do Espírito. O vislumbre do panorama das vidas sucessivas é um poderoso redutor na profilaxia do orgulho e provoca fissuras no seu complexo estrutural.
Naquele que nada vê adiante de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja e o orgulho fica sem contrapeso (OP – p. 228).
Em todo o capítulo 23 (O Egoísmo e o Orgulho) de Obras Póstumas, encontrarão o didata e o educador espíritas magnífico catálogo de sugestões e
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101 Idem, p. 223.
102 Idem, p. 223.
103 Idem, p. 223.
de idéias condutoras. Nessa mesma obra, encontrará o leitor a esperança de um redutor pedagógico do egoísmo, ou seja, a cooperação em trabalhos escolares. Por isso, a cooperação deverá elevar-se a um eminentíssimo status no âmbito da educação espírita. ”104
5.2.7 – Teoria da Maturação Espiritual.
“Se a natureza não dá saltos, o Espírito também não. Não é exigível do educando, agora considerado na perspectiva de toda sua existência espiritual, procedimentos, valores, conhecimentos, virtudes, para os quais ainda não amadureceu. [...] É a maturação que cadencia o desenvolvimento do Espírito e se manifesta sob a forma de gradação que limita (programa) a educabilidade. Essa teoria é a contrapartida, a nível genéticoespiritual, da teoria da maturação ontogênica do ser humano reencarnado, devida a Gesell105, Piaget e outros”.
6 – O QUE EDUCA O EDUCANDO?
Filósofos, pedagogos e psicólogos, têm polemizado sobre os fatores que mais atuam sobre o educando [...] Fatores internos, hereditários e psicológicos? Ou externos, como o meio físico, ambiente social, experiências e educação?
“Podemos classificar em três grupos os pensadores que elaboraram teorias sobre o desenvolvimento mental do homem: 1º) os inatistas, com suas idéias do primado dos fatores internos; 2º) os empiristas, defensores dos fatores externos; 3º) os partidários da interação ou convergência dos fatores internos e externos”. 106
6.1 – SOLUÇÃO DA FILOSOFIA ESPÍRITA DA EDUCAÇÃO:
6.1.1 – Convergência e Interação dos Três Fatores.
“A Filosofia Espírita da Educação recolhe a idéia de que, na formação humana, concorrem com o educador (sua ação e influência pessoais) os fatores impessoais: herança, meio e educação (como processo). [...] O meio físico e o ambiente social exercem forte pressão sobre a personalidade e caráter do educando, uma vez que não pode ele, nem deve, viver no insulamento (LE – Q 766 a 772): a vida social é indispensável ao seu aperfeiçoamento. Apesar de o Espírito encarnado estar submetido a essa trama de vetores, não está a ela subjugado inexoravelmente. Sofre-lhe a influência, por vezes penosa, para poder desenvolver a sua capacidade de resistência, numa ascese espiritual, até o domínio total do Espírito sobre a matéria. Nesse exercício, despoja-se de suas imperfeições e, por isso, a prova cármica oferecida pelos meios físico e social assume papel de alta relevância educativa”. 107
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104 Idem, p. 224.
105 Idem, p. 224 -225.
106 Idem, p. 229.
107 Idem, p. 241.
6.1.2 – A Auto-hereditariedade.
“A herança do passado pessoal (de si mesmo), imanente, manifesta-se nas idéias gerais, nos valores e comportamentos do educando sob a forma de tendências, intuições e consciência, formando o que se poderia chamar de personalidade arcaica, de penas e alegrias constituídas. Além dessa herança espiritual, o Espírito encarnado recebe o influxo da carga genética orgânica que pode facilitar ou embaraçar sua manifestação”.108
6.1.3 – A Ontogênese Psíquica Recapitula a Espiritogênese.
“O termo recapitulação nesse estudo é adotado no sentido particular de reação do passado anímico sobre o presente, despontando gradativamente sob formas esvaziadas de conteúdos materiais. É o conjunto das tendências, intuições, resoluções e experiências do pretérito; metamorfoses dos atos, fatos e episódios de outras encarnações. Como nos indica (EE – VIII, 4 - 3): A partir do nascimento, suas idéias [Espírito encarnado] tomam gradualmente impulso, à medida que os órgãos se desenvolvem. Equivale a dizer que a ontogênese recapitula a espiritogênese já realizada. Mas, uma vez completada a reminiscência espiritual e inconsciente, ultrapassa-a, aditando em cada existência alguma perfeição que o Espírito não havia conquistado. Completa, assim, ao termo da evolução, o ciclo: instintos + sensações + sentimentos+ amor (EE – XI, 8), através dos estágios infância + adolescência + juventude + madureza (LE – Q. 607a). Mas, o ser encarnado não recapitula mentalmente os estágios psíquicos da espécie, como pretendiam os partidários da lei biogenética. Nem recorda, o que é óbvio, os estágios que o Espírito ainda não vivenciou. A extensão da recapitulação é , assim, proporcionada à extensão da existência (espiritogênese) que o Espírito já percorreu”.109
6.1.4 – Convergência dos Fatores Internos e Externos.
A Filosofia Espírita da Educação resiste em reconhecer o primado de qualquer um desses fatores de modo permanente e para todos os Espíritos. “A predominância deste ou daquele fator é transeunte. Em certos Espíritos, em determinadas encarnações, e, nestas mesmas, em determinados períodos, pode atuar de modo mais decisivo um determinado fator”.110
6.1.5 – Períodos de Predominância de Cada Um dos Três Fatores.
“Nos primeiros anos de vida, até o desenvolvimento integral do seu organismo, o educando recapitula e atualiza (potência ato)111 as perfeições já realizadas em outras encarnações, até o grau que alcançará na última vida terrena (LE –Q.218ª, final), (EE – V ,11 – 4)”.
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108 Idem.
109 Idem, p. 242.
110 Idem.
111 Segundo o autor, “estamos adaptando ao nosso estudo a teoria aristotélica do ato e potência”. Nota de rodapé, p.242.
“Nessa primeira fase, é mais preponderante o fator educação (LE – Q. 383), porque a carga autogenética espiritual está latente. Numa segunda fase, no fim da adolescência, a potência passa ao ato e o „Espírito retorna à natureza que lhe é própria e se mostra tal qual era‟ (LE – Q.385). A partir desse ponto, as suas virtualidades até então reprimidas passam a atuar vigorosamente, igualando a força da educação e tendendo a sobrepujá-la. O ambiente social também passa a atuar desde que a criança toma consciência dele e de seus influxos. Temos aqui uma regra muito geral, um esquema sujeito a constantes oscilações e defasagens particularíssimas de cada educando”.
“Explicando: o Fator Educação é dominante desde o nascimento, quando a plasticidade da criança é mais acentuada (LE – Q. 385, 7), (LE – Q. 582), (EE – VIII, 4 - 3); essa receptividade, com o avanço dos anos, tende a reduzir-se, amortecendo a força da educação. O Fator Hereditariedade – deve ser tomado aqui segundo a concepção espírita, como herança de si mesmo – na fase infantil e da adolescência, permanece em estado de latência, para aflorar e preponderar após a adolescência (LE – Q. 385) e até o final da existência física. O ambiente social, por sua vez, no início pouco influi; depois disso é bastante atuante e termina por se enfraquecer; o fator social requer consciência dele para produzir efeitos mais acentuados no educando, o que não se dá na primeira infância. Por outro lado, na velhice, pela adaptação ao meio presumida como total, o fator social não produz mais modificações acentuadas”.
“Esta é uma conclusão privativa da Filosofia Espírita da Educação, comportando, contudo, análises muito atentas e cautelosas [...]”.112
6.1.6 – Virtualidades Absolutas e Virtualidades Relativas.
“Podemos distinguir dois tipos de virtualidades: as absolutas e as relativas. As absolutas são as que ainda, em nenhuma encarnação, foram realizadas; as relativas são as que já foram realizadas em anteriores encarnações, mas que, na presente, aguardam, em latência, o desenvolvimento orgânico para se manifestar. Um exemplo dessas virtualidades, encontramos em (EE – XIX, 7 – 2), relativamente à conquista da fé; e também em (GE – I, 38 -2) sobre qualidades tanto morais quanto intelectuais”. 113
6.2 – CONSEQUÊNCIAS DA SOLUÇÃO DA ESPÍRITA:
6.2.1 – Idade Axial (mais diretamente endereçada à Psicologia Espírita da Educação). Acompanhar pelo quadro, página38.
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112 Idem, p. 242-243.
113 Idem, p. 244.
“Esta faixa etária poderia também ser chamada de idade eixo (porque nela se engrazam dois sistemas ou estágios), ou ponto morto (porque nela se processa uma mudança de marcha), ou, ainda, área de afloramento (porque nela afloram os predicados até então subjacentes ao Espírito, ou encerra-se esse afloramento). Este eixo baliza o final da adolescência, entre os quinze e vinte anos de idade normalmente (LE –Q.385, 1-4) e inaugura a juventude. Constitui-se uma idade crítica para a Pedagogia e, particularmente, para a Psicologia Educacional Espírita. Este eixo assinala:
- a retomada do Espírito de sua verdadeira natureza (LE – Q. 385), no nível que atingiu na encarnação anterior;
- o encerramento da recapitulação da espiritogênese no subconsciente;
- o fechamento do estágio ou idade da graça educativa;
- a abertura do Espírito à incorporação de novas perfeições e aprimoramento das já conquistadas;
- o início da manifestação consciente da carga autohereditária;
- o aparecimento de mais um limitador da educabilidade constituído pela carga genótipoespiritual na autoherança.
A idade axial, como causa final, atrai e determina todo o desenvolvimento anterior; como causa inicial, condiciona os estágios posteriores. A rigor, não é um eixo, mas antes, uma faixa de transição da adolescência para a juventude, com um eixo central meramente convencional.
A idade axial nem sempre tem uma posição fixa. Varia de indivíduo para indivíduo, de encarnação para encarnação e, até, de um mundo para outro (EE – III, 9 – 2). Esse fenômeno psicogenético poderíamos denominar de deslocamento ou oscilação do meridiano psicopedagógico. Pode situar-se aquém da posição normal (mais ou menos entre quinze e vinte anos) por uma antecipação ou recuo. Também pode posicionar-se além dela por um avanço ou adiamento”.
6.2.2 – Redutibilidade do Período de Infância.
“Todo o cuidado deve ter o pedagogo espírita com suas normas; o didata com suas técnicas; e o educador espírita com sua intuição, improvisação e espírito prático e criador, para evitar avançar o meridiano psicopedagógico. Representaria um atraso no progresso do educando. Se possível e recomendável, deveriam permitir o recuo da idade axial, o que representaria uma aceleração do processo educativo pela antecipação do início da juventude-madureza. Os Espíritos mais evoluídos que habitam mundos superiores ao nosso têm um período de infância bem mais reduzido que o relativo à Terra (LE – Q. 183), (EE – III, 9 – 2). (LE – Q. 188 -4).[...]
Já é reconhecida pela Pedagogia e Psicologia da Aprendizagem a possibilidade de métodos especiais poderem acelerar o desenvolvimento mental dos educandos sem risco do seu equilíbrio. O próprio meio social hodierno concorre poderosamente para esse efeito pelos seus profusos meios de comunicação de massa. [...] A criança de hoje é mais precoce do que as de cinquenta anos atrás. Talvez não espiritualmente. Qual a força endógena que induz infantes e adolescentes a quererem vivenciar antecipadamente idades ulteriores? Tal disposição assemelha-se a uma anteléquia ordenada a um remoto futuro da Humanidade. O condicionamento estrutural psíquico pré determinaria a redução lenta e gradual do período de infância, através de vidas sucessivas e da hierarquia progressiva dos mundos habitados”.114
6.2.3 – Estágio da Graça Educativa.
“Apesar de a educação terrena, convencional e sensorial, só dever encerrar-se com a morte corporal, o maior esforço educativo deve ser desenvolvido nos primeiros anos da vida (LE – Q.383 e 385 – 7) e até o final da adolescência, balizado pela idade axial. Aclamamos este período como o Estágio da Graça Educativa. Isto porque, é nesse período que o educando apresenta as melhores condições de plasticidade, como é reconhecido por todas as pedagogias, inclusive a Espírita. Porém, por que esse estágio da graça se encerra a termo? Por que não se prolonga indefinidamente, como seria desejável? A Pedagogia Espírita descortina aos estudiosos a sua própria e original interpretação: a partir da idade axial, a carga genótipoespiritual, manifestada pela auto hereditariedade (LE – Q. 385), emerge na economia mental do educando como um limitador da educabilidade – o peso do passado anímico. Mas, por outro lado, também pode ampliar a educabilidade: educação gera educação, isto é, promove maiores possibilidades aos esforços educativos ulteriores.
Esse Estágio da Graça assim o é pelo amortecimento de alguns instintos; pelo bloqueio e contenção de maus pendores, sem janelas para o exterior; pelo repouso em que se acha o Espírito reencarnado e, principalmente, pela condição de latência da auto hereditariedade e do seu efeito mais indesejável de limitação da educabilidade acima referido. A Pedagogia Espírita ainda deve considerar a função da adolescência, que é a de preparar o Espírito para „retomar a natureza que lhe é própria e mostrar-se tal qual é‟ (LE – Q. 385).
A infância e a adolescência, de certo modo, prolongam a gestação intrauterina; só após esses dois períodos, o Espírito reencarnante nasce para a nova vida, porque só a partir daí se apresenta tal qual era antes de reencarnar como novo ponto de partida, conforme nos indicam (LE – Q. 218ª, final), (EE – VIII, 4 – 2), (EE – V, 11 – 4) e (QE – 19, 9, final). Corpo e Espírito não nascem, ou melhor, não surgem para a vida no mesmo dia. [...] André Luiz115 considera „que o trabalho completo [reencarnatório], com plena integração [do Espírito] nos elementos físicos, somente se verificará‟ aos sete anos. O período entre a concepção e o renascimento denomina de reencarnação inicial ”.116
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114 Idem, p. 146 -148.
115 Missionários da Luz, PP.219, 220 e 249.
116 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 248 -249.
6.2.4 – Estágio de Abertura do Espírito.
“A partir da idade axial, como linha de partida e também como base de apoio, o Espírito encarnado inicia um processo de progressiva abertura para a conquista de novas perfeições e de aprimoramento das já existentes. O sucesso irá depender do educando (boa vontade, energia, esforço pessoal, etc.), como agente espiritual de não só reprimir os vetores negativos de sua carga genótipoespiritual, como também de reforçar os positivos da sua auto hereditariedade. Assim compreendendo, o pedagogo e o educador espíritas deverão aproveitar essa oportunidade única para poderem distinguir as virtualidades relativas das absolutas. O que será possível, desde que dotado o educador espírita de percepções extrassensoriais ou mesmo mediúnicas.
Essa abertura é como um renascimento do Espírito que estivera, até então, em processo de retomada de suas qualidades e defeitos das encarnações anteriores pela atualização das virtualidades relativas.
Até a idade axial, ele recapitulou antigas lições, se assim nos podemos exprimir. A partir daí renasce, retoma o seu aperfeiçoamento, reenceta a sua marcha evolutiva atualizando alguma virtualidade absoluta.
STANLEY HALL admitia um período de renascimento e outro a ele sucessivo de aquisição e desenvolvimento. É a partir daí que a reencarnação justifica a sua principal razão de ser: o passo adiante que faculta ao Espírito na sua marcha ascendente, a partir desse ponto, pela autoeducação.
Poderíamos dizer que esses acréscimos de novas perfeições seriam semelhantes às mutações da genética biológica. Seriam mais propriamente minimutações, um plus aditado ao patrimônio já conquistado do Espírito na sua rota evolutiva (GE – I, 19-9). Vide ainda (QE –III, 118 -3) e (GE – I, 42, nota 1). As virtualidades relativas predominam no estágio da Graça Educativa, mas continua o seu afloramento com menos intensidade na fase de Abertura do Espírito, na qual as virtualidades absolutas passam a manifestar-se predominantemente.
Poderemos até ensaiar uma proposta [...]: a heteroeducação ordena-se à atualização das virtualidades relativas117, o que ocorre predominantemente no primeiro estágio. A autoeducação endereça-se à atualização das virtualidades absolutas e predomina no segundo estágio. Se o nosso „feeling‟ revelar-nos que a conclusão está correta, o acréscimo de qualidades, o crescimento do Espírito (Espiritogênese) resultaria do esforço todo pessoal do educando pela autoeducação. O mister do educador seria promover o afloramento das virtualidades relativas, isto é, aquelas já efetivadas em reencarnações anteriores e que se acham em estado virtual na encarnação considerada. Resulta daí a seguinte simetrização”:118
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117 Em (GE – I, 38 – 2) encontramos o reconhecimento dessas virtualidades relativas com a denominação de virtude original ou saber original. (Nota do Autor)
118 Lobo, Ney. Filosofia Espírita da Educação, vol. 1 – p. 249 -250.
6.2.5 – Sistema Estímulo – Repressão.
“A carga genótipoespiritual contida na auto-herança não é, contudo, homogênea. Nela se hospedam em convivência conflitiva boas e más qualidades, tendências certas e tendências erradas, vícios e virtudes, conhecimento e ignorância, créditos e débitos em conflito permanente pela hegemonia. Daí dois procedimentos serem recomendados: o hormonótico, ou estimulativo, para as boas tendências; e o terapêutico, ou corretivo, para os maus pendores. Somente quando este sistema estiver bem equilibrado, poderá o educando iniciar com segurança o estágio de abertura do Espírito para incorporação de novas qualidades (virtualidades absolutas). Ao revés disso, esta abertura poderá favorecer as más tendências, transformando-se naquilo que poderíamos denominar de contraeducação.
Este tratamento diferenciado para as virtudes e para as imperfeições, ativando as primeiras e reprimindo as segundas (imagem do freio e da aceleração), encontra um reflexo em (LE – Q. 917 – 5): „O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade o é de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver a outra, tal deve ser o alvo de todos os esforços do homem, se quiser assegurar sua felicidade neste mundo, tanto quanto no futuro‟.
Mas, como promover a manifestação da auto-herança para distinguir as boas das más tendências? Pela multiplicação, no ambiente escolar, das oportunidades e atividades que promovam a interação entre os educandos, pela intensificação da vida sócioescolar, porque „A vida social é a pedra de toque das boas e más qualidades‟ (CI – 1º, III, 8). Esta convivência serve ao educador não só para distinguir, como também para desenvolver as boas tendências: „unicamente no contato com os seus semelhantes, nas lutas mais árduas, é que ele [o homem] encontra ensejo de praticá-la [a caridade]. Aquele, pois, que se isola, priva-se voluntariamente do mais poderoso meio de aperfeiçoar-se‟ (EE – XVII, 10 – 5); „a bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo as relações do homem com seus semelhantes‟ (CI – 1ª, III, 8 – 2).
ESTUDO DA OBRA: FILOSOFIA ESPÍRITA DA EDUCAÇÃO - PARTE 2
2.1 - O que é o Educando segundo a Filosofia Espírita da Educação?
2.1.1 - A Filosofia Espírita da Educação compreende o homem como um ser trinitário, “composto de três elementos essenciais: o corpo, o perispírito e o Espírito (ou alma), os quais assimilam-se entre si, não são superpostos, nem encerrados um no outro. Essa assimilação se dá por união acidental”31.
A natureza do corpo físico (último grau de materialidade na Terra) “é material, animal e evolutiva. Tem como função abrigar o Espírito; conectá-lo ao mundo exterior; possibilitar o progresso desse Espírito, depurando-o, facultando oportunidade para expiação de culpas e para cumprimento de missões e provas. Origina-se por condensação do fluído cósmico universal e pela combinação dos elementos orgânicos da terra; resultado da evolução de espécies inferiores e gerado pelos pais carnais em cada reencarnação do Espírito. Evolui, na passagem do Espírito de um mundo para outro no sentido da materialidade grosseira para o estado fluídico. Na morte, decompõe-se e seus elementos são absorvidos pela terra [...] seus elementos vão formar novos organismos. [Pode evoluir sucessivamente até] confundir-se com o perispírito”.32
O perispírito tem “natureza semimaterial, tendendo para o espiritual. [Sua função é] ligar o Espírito ao corpo; estabelecer comunicação entre eles; concretizar o Espírito; produzir fenômenos espíritas; exercer funções psicossomáticas (psicológicas, fisiológicas, patologias, terapêuticas) É o resultado da ação condensadora e individualizadora do Espírito sobre o fluído cósmico universal. Sua natureza evolui desde a condição da matéria, confundindo-se com o corpo físico, até a depuração completa, quando se confunde com o Espírito puro. Com o perecimento do corpo físico, desprende-se dele e acompanha o Espírito; na passagem do Espírito de um mundo a outro, é abandonado no mundo de origem; [Seu destino último é] assimilar-se ao Espírito propriamente dito”.33
O Espírito, ser incorpóreo de imaterialidade relativa, tem por essência a inteligência, com a qual se confunde num princípio comum: “é o princípio
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31 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.131.
32 Idem.
33 Idem.
inteligente e moral; é imortal, não tem forma, é simples e indivisível. [Suas funções são] pensar; centrar os outros envoltórios; sediar o pensamento e o senso moral; imprimir movimento aos órgãos; modelar o corpo físico; modelar o corpo físico; manifestar-se e irradiar-se em todas as direções; atuar indiretamente sobre a matéria. Resulta da individualização do princípio inteligente através dos diversos graus de animalidade; na conclusão da individualização, recebe de Deus atributos especiais e torna-se um Espírito humano, simples e ignorante, mas com aptidão para tudo conhecer. Vai se depurando da influência da matéria de encarnação em encarnação, de um mundo para outro, de grau em grau espiritual. Ao termo de cada vida física, sobrevive, conservando sua individualidade; seu fim último é atingir o estado de perfeição relativa e de suprema e perene felicidade como puro Espírito no seio de Deus”.34
2.1.2 – Na Filosofia Espírita da Educação, “o educando é esse mesmo homem (e todos os homens), assim definido, mas enfocado e visto sob o aspecto particular da sua evolução, considerada essa como o processo e o resultado progressivo da ação dos agentes e fatores da educação sobre ele e principalmente da autoeducação.” 35
Logo, “o educando é essencialmente um Espírito criado por Deus, em estado imperfeito, inacabado, mas perfectível, com todas as aptidões e faculdades em estado potencial; daí a sua plasticidade ou sensibilidade ao processo educativo; dotado de racionalidade, liberdade, moralidade, socialidade e imortalidade; composto de corpo e Espírito unidos pelo perispírito em união acidental, cujo elemento permanente é o Espírito, o qual tem por essência a inteligência. Em muitas e sucessivas encarnações, vai ocupando corpos físicos perecíveis, dos quais vai se despojando pela morte; sendo que, em cada encarnação, é submetido ao processo de esquecimento das existências pretéritas, mas conservando delas o patrimônio anímico já conquistado, intelectual e moral. Em forma intuitiva, como suporte ou alinhavo do seu aperfeiçoamento através das existências e sobre o qual se alicerça, se desenvolve e desliza o processo educativo por efeitos cumulativos; até não necessitar mais das experiências carnais, evoluindo na espiritualidade, para alcançar o seu fim último como puro Espírito, gozando de perene felicidade no seio de Deus, que é a situação dos seres espirituais, isto é, completamente educado”.36
Como ser reencarnado, se apresenta com:
a) “Instintos biopsíquicos da espécie ligados a fatores hereditários; a complexos e traumatismos decorrentes da formação familiar e outras relações da infância; a prejuízos provenientes de informações falsas e dados socioculturais deformados;
b) Cargas inconscientes de vivências anteriores maléficas e benéficas, prontas a aflorar na consciência mediante estímulos atuais; percepções e emoções reprimidas pela censura pessoal e familiar e introjetadas, alterando o
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34 Idem, p.132.
35 Idem.
36 Idem, p.132, 133.
comportamento; reminiscências e anseios de frustrações do passado reencarnatório no presente, em formas ídeoafetivas;
c) Impulsos ou instintos espirituais determinantes de suas aspirações atuais; experiências e conhecimentos latentes e prontos a eclodir mediante estímulos adequados; posição e atitude perante a vida, o mundo e os semelhantes, decorrentes desses diversos valores ídeoemocionais latentes”.37
Recordando Herculano Pires: “a pedra fundamental da Pedagogia Espírita está lançada e não podemos retirá-la: o educando é um reencarnado”.38
2.2 – CONSEQUÊNCIAS PEDAGÓGICAS DA SOLUÇÃO ESPÍRITA:
1ª) Educação Religiosa.
2ª) Tomada de consciência de si mesmo.
3ª) Preocupação fundamental: educação do Espírito.
4ª) Duplo sentido do processo educativo.
5ª) Educação do composto humano.
6ª) Educação dos sentimentos.
2.2.1 – Educação Religiosa:
“O primeiro e mais geral [efeito do Espiritismo filosófico] consiste em desenvolver o sentimento religioso”. (LE – Concl. VII, 4)
“Se a Filosofia Espírita da Educação propicia a visão de Deus como pórtico e meta do Espírito do educando, integrado este na economia divina, deve, por isso mesmo, postular à Pedagogia Espírita a formação religiosa dos alunos. [...] Não que vá a Pedagogia Espírita referendar ou hospedar o ensino religioso convencional. Ao contrário, cumpre-lhe idealizar conteúdos, métodos e objetivos originais, coerentes com a concepção espírita tanto do Criador, quanto da educação, educando e educador e não em desalinho dos indicadores doutrinários”.39 A Doutrina Espírita tem uma compreensão específica de Deus e essa deve “servir de centro de gravidade de um sistema próprio de Educação Religiosa”.40 “Essa formação religiosa não pode sucumbir ao dogmatismo, nem ser catequética. Deve, sim, ser conduzida pelos apelos à razão do educando com respaldo no desenvolvimento progressivo do seu senso crítico.” 41 “É indispensável [ao educador] que tenha sólida formação religiosa espírita em curso de formação e que ostente livre e consciente aceitação do princípio da existência de Deus. [...] Deve visar-se à motivação do
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37 Idem, p. 134.
38 Revista Educação Espírita, nº4 – p.33.
39 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.136.
40 Idem, p. 137.
41 Idem.
educando para amá-Lo de toda a sua alma e ao seu próximo como a si mesmo.” 42
“Fé inabalável só é a que pode encarar a razão em todas as épocas da Humanidade”. (EE – XIX, 7,3)
2.2.2 - Tomada de Consciência de Si Mesmo:
“A Educação Espírita deverá incluir entre seus fins a promoção da tomada de consciência por parte do educando, já a nível pedagógico, com o auxílio da Didática: 1) da sua origem divina; 2) de sua natureza espiritual; da sua condição de ser reencarnado. Esses objetivos concorrem [...] para o desenvolvimento da espiritualidade. As atividades, estudos, reflexões e introspecções não podem estar ausentes de um currículo autenticamente espírita, concorrendo decisivamente para a tomada de consciência indicada. [...] Para viabilizá-la, o educador espírita deverá possuir qualidades [...] de intuição profunda ordenada ao núcleo anímico do educando e à mediunidade tecnicopedagógica, obtidas em curso de pósgraduação precedido de testes vocacionais específicos. [...] A Psicologia Educacional Espírita, quando desenvolvida, haverá de indicar os meios de cumprir esses objetivos. Enquanto não dispomos dessa contribuição, não se pode furtar o educador espírita ao mister de conduzir o educando à conscientização de sua natureza essencial, de sua origem divina e de sua condição pluriexistencial”43 , recorrendo à própria intuição, imaginação e espírito prático.
“Todo ensino metódico tem que partir do conhecido para o desconhecido. Ora, para o materialista, o conhecido é a matéria: parti, pois, da matéria e tratai, antes de tudo, fazendo que ela a observe, de convencê-lo de que há nela alguma coisa que escapa às leis da matéria. numa palavra, primeiro que o tornes espírita, cuidai de torná-lo espiritualista.” (LM – III, 19)
“O conhecimento de si mesmo é a chave do progresso individual.” (LE – Q.919ª, 3)
2.2.3 – Preocupação Fundamental: Educação do Espírito.
“O Espírito é o único componente do homem que permanece na sucessão das encarnações e dos mundos pelos quais transita. Por isso, o educando deve ser visto pelo educador como caminheiro de muitas etapas. O lastro de vivência em muitas existências, soterrado em seu inconsciente, submete-o a pesadas condições, nada negligíveis. Segundo essa linha de pensamento, os quatro vetores de que dispõe o educador para atuar sobre o educando – conteúdo, método, disciplina e instituição escolar – devem ser adaptados e proporcionados à natureza espiritual do aluno.
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42 Idem.
43 Idem, p.138.
O conteúdo, ou currículo, como já vimos, deve gravitar em torno de um núcleo de motivos que promovam mais diretamente a educação do Espírito e que são: Deus, alma, conduta moral e sentimento, e daí, respectivamente, a Educação Religiosa, Educação Espiritual, Educação Moral e Educação do Sentimento.
A disciplina, ou regime de controle escolar, também deve representar um impulso diretamente ordenado à educação do Espírito. Para isso devem ser banidos os processos de castigos e recompensas, e incorporados os que formalizam a responsabilidade individual de cada discente, com fundamento nos princípios espíritas da reparação e da proporcionalidade relativa ao grau espiritual de cada um.
A instituição escolar deve proporcionar um ambiente todo penetrado de espiritualidade; bosques, jardins, recantos para meditação e prece, individuais ou coletivos, salas de música e para outras expressões artísticas. Tudo num ambiente de beleza, liberdade e confiança. Compete ao administrador escolar espírita e ao arquiteto projetarem as edificações que possam refletir e falar ao espírito do jovem.
O método [...] terá de levar em conta [que] a inteligência é a essência da alma e até com ela se confunde num princípio comum e, que o pensamento é a própria inteligência em ato. Por isso, o método recomendado será aquele que induza o exercício da razão sem perder de vista a imaginação e o sentimento. É evidente que esse apelo à inteligência deverá pautar-se pelos estágios da Psicologia Genética. É no início das operações concretas, dos sete aos doze anos de idade, e que culmina com as operações formais, mais ou menos aos onze anos, que se apresenta o período mais propício a esse desenvolvimento, conforme as pesquisas de Piaget. Esse mesmo método, que se ordena à educação do Espírito, deverá incorporar processos que auxiliem o educando a algumas intuições de seu passado anímico. A própria filosofia grega sugeriu alguns processos nesse sentido, justamente porque julgou necessários à Educação. Sócrates, pela sua maiêutica procurava fazer aflorar à consciência do interlocutor [...] as idéias inatas [...]. Desse modo, pretendia o filósofo levar o educando ao conhecimento de si mesmo. [...] Por outro lado, Platão idealizou a teoria da reminiscência, pela qual conhecer é reconhecer, o que estava subjacente no Espírito, pela contemplação das idéias perfeitas antes das almas encarnarem e que nele dormitavam, aflorando depois ao consciente pela ação do mestre. ”44
2.2.4 – O Duplo Sentido do Processo Educativo:
“[...] Allan Kardec reconhece o sentido da educação do consciente para o inconsciente ao definir a educação como ‘conjunto de hábitos adquiridos’ (LE – Q. 685 a) e a virtude como „o hábito do bem’ (LE –Q.894). Ora, esse automatismo do hábito está a indicar a sua natureza inconsciente. [...] O que, porém, pretendemos [...] é propor um segundo sentido par o processo
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44 Idem, p.140 -143.
educativo: do inconsciente para o consciente, do perispírito para o Espírito. [...] A Educação se valeria dos dois sentidos do movimento: [...] formando bons hábitos intelectuais e morais e [...] fazendo emergir, do inconsciente para o consciente, lembranças intuitivas que sejam capazes de auxiliar a compreensão da encarnação atual do educando.” 45
2.2.5 – Educação do Composto Humano:
“Se as três substâncias formativas do ser humano – corpo, perispírito e Espírito – são suscetíveis de progressivo aperfeiçoamento, isso está a indicar que clamam pela educação, aliás, como exclusivos objetos dela”. 46
Uma vez já tradado o tema da Educação do Espírito, abordaremos as demais.
- Educação do Corpo Físico:
“[...] Não pode a Educação dispensar-se de proporcionar ao corpo todo cuidado. É através dele que o Espírito recebe os influxos do meio físico e do mundo exterior. [...] Daí a justificabilidade da Educação Física, Esportes, Saúde, Higiene e Educação Sexual no currículo escolar”.47
“Amai, pois, a vossa alma, porém cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela”. (EE – XVII, 11 -2).
- Educação do Perispírito:
“À vislumbrada Pedagogia Científica Espírita (Experimental) caberá procurar caminhos e vetores para o atingimento pedagógico do perispírito. Isso pode ser conseguido segundo duas direções convergentes: a do corpo físico e a do Espírito, uma vez que o mediador plástico participa da natureza de ambos, a material e a espiritual. Dada a sua ampla fisiologia, os desarranjos do corpo fluídico poderão perturbar tanto o progresso do Espírito quanto a instrumentalidade do veículo carnal. [...] Todas as injúrias causadas ao corpo se refletem no psicossoma; logo é invencível a idéia de que os valores impressos no corpo – saúde, força, integridade, vitalidade, robustez, proporcionalidade, harmonia – também se estampem no perispírito, de alguma forma aperfeiçoando-o, educando-o. [...] O envoltório fluídico acompanha a evolução do Espírito, cujo progresso moral nele se reflete, desmaterializando-o gradualmente, purificando-o dos elementos grosseiros que contém”.48
“Por efeito do desenvolvimento moral, alarga-se o círculo das idéias e da concepção; por efeito da desmaterialização gradual do perispírito, este se purifica dos elementos grosseiros que lhe alteravam a delicadeza das percepções, o que torna mais fácil compreender-se que a
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45 Idem, p.143-144.
46 Idem, p.144.
47 Idem.
48 Idem, p. 144 -145.
ampliação de todas as faculdades acompanha o progresso do Espírito”. (GE – XVI, 9-2).
2.2.6 – Educação dos Sentimentos:
“A linha de desenvolvimento da educação confunde-se com a própria linha da evolução espiritual. Daí infere-se que o sistema pedagógico deve incorporar um conjunto harmônico e eficaz de práticas sociais a fim de ir desenvolvendo a sensibilidade para a sorte do próximo, irmão e companheiro de jornada.
[...] A descrição de (LE –Q.113) faz sistema com (EE – XI, 8-3) e que nos indica a linha [...] em correta evolução hierárquica dos valores preferenciais do Espírito em sua romagem para Deus: Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimento. E o ponto delicado do sentimento é o amor. A fim de avançar para a meta, tem a criatura que vencer os instintos, em proveito dos sentimentos, isto é, que aperfeiçoar esses últimos, sufocando os germes latentes da matéria. Os instintos são a germinação e os embriões do sentimento; trazem consigo o progresso, como a glande encerra em si o carvalho”. 49
Ney Lobo cita o pedagogo René Hubert, numa passagem em que este orienta a formação dos sentimentos sociais: “Nem sequer as lições de bondade exerceram qualquer influência sobre as crianças antes de chegarem à prépuberdade, porque em geral não têm nem experiência, nem imaginação do sofrimento , ou se o conhecem, consideram-no como um elemento da natureza das coisas e nem lhes ocorre apiedar-se dele. Bem diferente é o que ocorre com a expansão das disposições afetivas que acompanham a puberdade. Então, é quando o educador pode trabalhar utilmente ampliando os sentimentos de simpatia, que, todavia não tratam de fixar-se, iluminando-os sobre a realidade da dor e da miséria, ativando-os pelo cumprimento de atitudes suscetíveis de aliviar essas realidades. A puberdade é a idade em que, tendo já pouco a pouco se desvanecido o egocentrismo, os demais [sentimentos] começam a existir verdadeiramente e por si mesmos aos olhos do adolescente. A imaginação afetiva consiste então na capacidade de por-se no lugar deles, de sofrer com eles e ainda por eles. Este é o momento em que a revelação das grandes tristezas sociais pode comover mais profundamente a sensibilidade posta a nu. O importante é que esta impregnação pelo conhecimento da dor seja suficientemente forte, suficientemente prolongada durante todo o período da adolescência, como para manter-se como um traço essencial da estrutura moral do adulto. Graças a essas condições, adquire-se a virtude da generosidade e se forjam os homens de coração”.50
“Por essa mesma razão, sentencia a Codificação: „A vida social é a pedra de toque das boas e más qualidades‟ (CI - 1º, III, 8). [...] Infere-se daí , que a
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49 Idem, p.146.
50 Idem, p.146 -147.
educação do sentimento deve processar-se em contextos sociais que promovam intensas interações pessoais. Esses ambientes, opulentos de dependências recíprocas, de interrelações, tanto servem para a ativação do sentimento, quanto para revelar o grau de sensibilidade do educando, suas carências, qualidades e progressos”.51
3 – QUEM É O EDUCANDO?
Cumpre-nos definir agora “o universo humano a ser abrangido pela Educação Espírita. Seria concebível uma educação a termo, isto é, a formação do ser humano em período prestabelecido ao fim do qual todos os destinatários seriam considerados como tendo completado sua educação? Ou a formação humana nunca se consuma? [...] Educando é apenas a criança e o adolescente? Ou também inclui os jovens? E os adultos, igualmente? E os idosos, também não estão submetidos sutilmente a processos discretamente pedagógicos? A formação humana encerra-se com a cessação da vida convencional? Além desse termo derradeiro, nenhuma modificação ou aperfeiçoamento será possível imprimir ao Espírito? O Espírito desencarnado poderá, autenticamente, ser considerado um educando? Quais seriam, então, seus mestres? Os deficientes mentais são sensíveis ao esforço de educação? E os selvagens podem ser considerados como educandos?” 52
3.1 – EXTENSÃO DO PERÍODO DA EDUCAÇÃO.
“Num enfoque global, a educação latu sensu, inicia-se com a própria criação do Espírito (LE – Q. 122, 262, 189, 607), (GE – III, 10, fim). A partir desse marco, já se processam os primeiros progressos manifestados pela abertura da consciência de si mesmo. Em consequência, inaugura-se o livre arbítrio, dão-se os primeiros lampejos da responsabilidade, a aurora radiosa da consciência do futuro e o raiar do senso moral. Na outra ponta do roteiro, só pode ser considerado como concluído o processo quando atingido o status de puro Espírito. Desse modo, a educação participa da imortalidade do Espírito, porque o progresso é quase infinito (LE – Q.169). Isso significa que a educação, quer como processo quer como resultado é coexistente ao Espírito, abrangendo toda a extensão da sua existência imortal e ininterrupta.” 53
3.2 – TODOS OS ESPÍRITOS SÃO EDUCANDOS.
“Educandos são todos os Espíritos em qualquer situação, fase, estágio, grau ou nível em que se encontrem, ao longo de toda a vida imortal deles. Há educação antes do renascimento orgânico, durante as vidas físicas, até o desprendimento do Espírito, estendendo-se além dele em estado livre.
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51 Idem, p.147.
52 Idem, p.151.
53 Idem, p. 161.
O Espírito encarnado, quer no estado de vigília quer no de emancipação (sono ou sonambulismo), quer pela heteroeducação (sistemática ou assistemática), quer pela autoeducação, está permanentemente submetido a processos educativos e, ainda, pela ação tanto de encarnados quanto de desencarnados.
As entidades no estado livre tanto podem ser educadas por outros Espíritos desencarnados que lhe sejam superiores, como seus mestres, quanto por encarnados, pelo processo de doutrinação em sessões mediúnicas.
Essa conclusão só admite duas exceções: os puros Espíritos, que atingiram o grau máximo de educação, e certos tipos de deficientes mentais infranormais”.54
3.3 – OS DEFICIENTES MENTAIS EM INFRANORMALIDADE PROFUNDA NÃO SÃO EDUCANDOS.
“Em que pese a conclusão geral de serem educandos todos os Espíritos em qualquer situação ou condição, os seres humanos, na conjuntura de excepcionalidade negativa, estão submetidos a doloroso processo de provação. Estão saldando pesadas dívidas do pretérito delituoso. Temporariamente, não são suscetíveis de resposta ao esforço educativo [...] É uma expiação decorrente do abuso que fizeram de certas faculdades. É um estacionamento provisório (LE – Q. 373)”.55
3.4 – OS SELVAGENS TAMBÉM SÃO EDUCANDOS.
“A possibilidade de sofrer modificações, progredindo, é a primeira condição da educabilidade. Ora, os selvagens são submetidos a processo de aperfeiçoamento, embora em posição muito distante do homem civilizado. Confirma a Codificação: A alma do selvagem atingirá, pois, com o tempo, o mesmo grau da alma esclarecida (QE – III, 139)”.
3.5 – CONSEQUÊNCIAS PEDAGÓGICAS DA SOLUÇÃO ESPÍRITA:
3.5.1 - Canais da Educação.
Todos os pedagogos, educadores e filósofos trataram tão somente da educação escolar “ministrada de modo direto, intencional, sistemático, consciente e profissional, quer como missão, quer como profissão. A Filosofia Espírita da Educação está em condições de apresentar à reflexão dos estudiosos da educação mais outros doze canais de comunicação a nível espiritual, pelos quais correm também a influência pessoal educativa, a mensagem edificante, o corretivo bondoso, necessário e oportuno, a inspiração de novas idéias, a doutrinação do desviado e o conselho ao desorientado”.56
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54 Idem, p. 161-162.
55 Idem, p. 162.
56 Idem, p. 165
a) Por contato sensorial direto: “Trata-se aqui da educação convencional e formal de Espírito encarnado a outro, numa relação pedagógica de educador e educando. Geralmente, do professor ao aluno. Pode ser, ainda, dos pais aos filhos, do orientador espiritual aos discípulos; do mestre de ofício ao aprendiz; do iniciador ao iniciando. É a única conhecida e estudada”.57
b) Por telegrafia humana ou espiritual, de vivente a vivente, em vigília: “É uma ligação intervivos apresentada pela Codificação Espírita, a qual, ao seu tempo, Kardec denominou telegrafia humana. Trata-se de uma comunicação direta e telepática de Espírito a Espírito, ambos encarnados, não adormecidos. Para isso será necessário que seus espíritos se desprendam em parte da matéria, o que depende de um certo grau de depuração, muito raro no estado atual da Humanidade. Todavia, como sempre que há um canal de comunicação, por essa mesma razão, estende-se, paralelo, uma canal de educação, através do qual circula o fluxo instrutivo, esta será uma direção a mais no plano terreno da malha de canais utilizáveis educacionalmente”.58
(LM – XXV, 285, 58); (LE – Q.420, 421); (OP – 10, p. 16 a 22).
c) Por evocação ou simples simpatia, de vivente a vivente, em vigília: “Por evocação de um deles, dois Espíritos encarnados podem entrar em comunicação e, por isso mesmo, um poderá influir sobre o outro, exercendo salutar ação educativa sob forma de inspiração, conselho, instrução, etc. Todavia, é necessário que o Espírito do evocado – educando, no caso – esteja parcialmente desprendido da matéria, um pouco adormecido. A própria evocação do Espírito acordado provocará um leve adormecimento, um ligeiro torpor. Outras condições são necessárias: vontade enérgica do evocador e laços de simpatia entre as duas pessoas”.59
(LM – XXV, 284, 43 a 49); (LE – Q.421).
d) Por emancipação, de vivente a vivente, dormindo ou em estado sonambúlico: “Durante o sono, ou no estado sonambúlico, afrouxando-se os laços que o ligam ao corpo, pode um Espírito entrar em ligação mais direta com outro Espírito também emancipado, podendo o que for superior produzir no outro um efeito educativo, assumindo um a posição de educador e o outro a de educando”.60
(LE – Q.401, 402, 410, 414, 415, 416, 417, 419, 455); (GE – XIV, 22, 23).
e) Pelo pensamento, de Espírito desencarnado a Espírito desencarnado: “Os espíritos desencarnados comunicam entre si através do meio chamado fluído universal, como veículo de transmissão de seus pensamentos. Nessa situação, orientados por espíritos que lhe são superiores, realizam estudos, procuram meios para elevar-se, ouvem as dissertações e os conselhos dos
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57 Idem, p. 165.
58 Idem, p.165 -167.
59 Idem, p. 167.
60 Idem.
mais elevados, procuram instruir-se e promovem pesquisas. Sempre dispõem de um educador ou guia que os aperfeiçoa e até aprendem numa hora o que na Terra exigiria anos de aprendizado (LE –Q.98). As suas idéias sofrem grandes modificações. Mesmo os espíritos atrasados ou recalcitrantes não podem se furtar a esses ensinos, pois são obrigados a ouvir os conselhos dos espíritos bons, e tudo que possa ser útil ao seu aperfeiçoamento”.61
(QE – II, 156); (LE – Q.224b, 227, 230, 231, 235, 257, 266, 282, 318, 888, 898).
f) Por incorporação, de pessoa viva a Espírito desencarnado: “A doutrinação tem por agente (educador) o dirigente de mesa em sessão mediúnica e por paciente o Espírito desencarnado (educando) incorporado em um médium. Pela doutrinação, podem os Espíritos imperfeitos ser desviados do mal; podem ser ajudados a reconhecer seu estado e a se desprender da matéria para encetar o seu aperfeiçoamento. Essa relação pedagógica exige ascendência moral do educador (doutrinador), aliás como em todas as outras relações educativas”.62
(CI – I, XI, 15); (LM – XXI, 213 – 4); (LM – XXIII, 254 – 5).
g) Por mensagens, influência, inspiração, etc., de Espírito desencarnado a pessoas vivas: “Este canal de comunicação presta-se à ação educativa pelos processos de influência espiritual superior, inspiração de boas idéias e resoluções sadias, mensagens de alto teor moral ou instrutivas, orais ou escritas. As mensagens podem ser individualizadas, com endereço pessoal, ou podem servir a milhares ou milhões de pessoas, como as que se encontram psicografadas nos livros dos grandes médiuns. O conjunto dessas obras constitui verdadeira enciclopédia de educação moral e intelectual. Mesmo fora das sessões mediúnicas, os Espíritos desencarnados superiores influem beneficamente sobre nossos pensamentos, induzindo a nossa evolução educativa”.63
(LM – X, 137); (LE – Q. 459, 460, 461, 462, 464); (OP – p.62, Inspiração).
h) Por contato dos Espíritos de pessoa viva, em vigília, a Espírito emancipado: “É um canal de comunicação que admitimos como possível, por dedução, a partir da possibilidade real e efetiva de duas pessoas vivas, em vigília, poderem comunicar-se por evocação; se um deles já se acha emancipado, torna esse contato bem mais fácil. É tão viável este canal de educação que se desenvolvem estudos, pesquisas e tentativas ainda incipientes e pouco cautelosas para o ensino de línguas estrangeiras a alunos adormecidos, inclusive com lições gravadas. Deus outorgou ao homem a faculdade sonambúlica para fim útil e sério (LE – q. 425). Acrescente-se mais: o estado sonambúlico pode ser provocado. Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno psicológico, é uma luz projetada sobre a Psicologia. É aí que se pode estudar a alma, porque é onde esta se mostra a descoberto (LE – Q. 455). O sonambulismo será igualmente a base da Psicologia Educacional”.64
(LM – XXV, 47); (LM – Q. 406, 455 – 9); (OP – p. 51 e 62).
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61 Idem, p. 167-168.
62 Idem, p. 168.
63 Idem.
64 Idem, p. 169.
2.1.1 - A Filosofia Espírita da Educação compreende o homem como um ser trinitário, “composto de três elementos essenciais: o corpo, o perispírito e o Espírito (ou alma), os quais assimilam-se entre si, não são superpostos, nem encerrados um no outro. Essa assimilação se dá por união acidental”31.
A natureza do corpo físico (último grau de materialidade na Terra) “é material, animal e evolutiva. Tem como função abrigar o Espírito; conectá-lo ao mundo exterior; possibilitar o progresso desse Espírito, depurando-o, facultando oportunidade para expiação de culpas e para cumprimento de missões e provas. Origina-se por condensação do fluído cósmico universal e pela combinação dos elementos orgânicos da terra; resultado da evolução de espécies inferiores e gerado pelos pais carnais em cada reencarnação do Espírito. Evolui, na passagem do Espírito de um mundo para outro no sentido da materialidade grosseira para o estado fluídico. Na morte, decompõe-se e seus elementos são absorvidos pela terra [...] seus elementos vão formar novos organismos. [Pode evoluir sucessivamente até] confundir-se com o perispírito”.32
O perispírito tem “natureza semimaterial, tendendo para o espiritual. [Sua função é] ligar o Espírito ao corpo; estabelecer comunicação entre eles; concretizar o Espírito; produzir fenômenos espíritas; exercer funções psicossomáticas (psicológicas, fisiológicas, patologias, terapêuticas) É o resultado da ação condensadora e individualizadora do Espírito sobre o fluído cósmico universal. Sua natureza evolui desde a condição da matéria, confundindo-se com o corpo físico, até a depuração completa, quando se confunde com o Espírito puro. Com o perecimento do corpo físico, desprende-se dele e acompanha o Espírito; na passagem do Espírito de um mundo a outro, é abandonado no mundo de origem; [Seu destino último é] assimilar-se ao Espírito propriamente dito”.33
O Espírito, ser incorpóreo de imaterialidade relativa, tem por essência a inteligência, com a qual se confunde num princípio comum: “é o princípio
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31 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.131.
32 Idem.
33 Idem.
inteligente e moral; é imortal, não tem forma, é simples e indivisível. [Suas funções são] pensar; centrar os outros envoltórios; sediar o pensamento e o senso moral; imprimir movimento aos órgãos; modelar o corpo físico; modelar o corpo físico; manifestar-se e irradiar-se em todas as direções; atuar indiretamente sobre a matéria. Resulta da individualização do princípio inteligente através dos diversos graus de animalidade; na conclusão da individualização, recebe de Deus atributos especiais e torna-se um Espírito humano, simples e ignorante, mas com aptidão para tudo conhecer. Vai se depurando da influência da matéria de encarnação em encarnação, de um mundo para outro, de grau em grau espiritual. Ao termo de cada vida física, sobrevive, conservando sua individualidade; seu fim último é atingir o estado de perfeição relativa e de suprema e perene felicidade como puro Espírito no seio de Deus”.34
2.1.2 – Na Filosofia Espírita da Educação, “o educando é esse mesmo homem (e todos os homens), assim definido, mas enfocado e visto sob o aspecto particular da sua evolução, considerada essa como o processo e o resultado progressivo da ação dos agentes e fatores da educação sobre ele e principalmente da autoeducação.” 35
Logo, “o educando é essencialmente um Espírito criado por Deus, em estado imperfeito, inacabado, mas perfectível, com todas as aptidões e faculdades em estado potencial; daí a sua plasticidade ou sensibilidade ao processo educativo; dotado de racionalidade, liberdade, moralidade, socialidade e imortalidade; composto de corpo e Espírito unidos pelo perispírito em união acidental, cujo elemento permanente é o Espírito, o qual tem por essência a inteligência. Em muitas e sucessivas encarnações, vai ocupando corpos físicos perecíveis, dos quais vai se despojando pela morte; sendo que, em cada encarnação, é submetido ao processo de esquecimento das existências pretéritas, mas conservando delas o patrimônio anímico já conquistado, intelectual e moral. Em forma intuitiva, como suporte ou alinhavo do seu aperfeiçoamento através das existências e sobre o qual se alicerça, se desenvolve e desliza o processo educativo por efeitos cumulativos; até não necessitar mais das experiências carnais, evoluindo na espiritualidade, para alcançar o seu fim último como puro Espírito, gozando de perene felicidade no seio de Deus, que é a situação dos seres espirituais, isto é, completamente educado”.36
Como ser reencarnado, se apresenta com:
a) “Instintos biopsíquicos da espécie ligados a fatores hereditários; a complexos e traumatismos decorrentes da formação familiar e outras relações da infância; a prejuízos provenientes de informações falsas e dados socioculturais deformados;
b) Cargas inconscientes de vivências anteriores maléficas e benéficas, prontas a aflorar na consciência mediante estímulos atuais; percepções e emoções reprimidas pela censura pessoal e familiar e introjetadas, alterando o
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34 Idem, p.132.
35 Idem.
36 Idem, p.132, 133.
comportamento; reminiscências e anseios de frustrações do passado reencarnatório no presente, em formas ídeoafetivas;
c) Impulsos ou instintos espirituais determinantes de suas aspirações atuais; experiências e conhecimentos latentes e prontos a eclodir mediante estímulos adequados; posição e atitude perante a vida, o mundo e os semelhantes, decorrentes desses diversos valores ídeoemocionais latentes”.37
Recordando Herculano Pires: “a pedra fundamental da Pedagogia Espírita está lançada e não podemos retirá-la: o educando é um reencarnado”.38
2.2 – CONSEQUÊNCIAS PEDAGÓGICAS DA SOLUÇÃO ESPÍRITA:
1ª) Educação Religiosa.
2ª) Tomada de consciência de si mesmo.
3ª) Preocupação fundamental: educação do Espírito.
4ª) Duplo sentido do processo educativo.
5ª) Educação do composto humano.
6ª) Educação dos sentimentos.
2.2.1 – Educação Religiosa:
“O primeiro e mais geral [efeito do Espiritismo filosófico] consiste em desenvolver o sentimento religioso”. (LE – Concl. VII, 4)
“Se a Filosofia Espírita da Educação propicia a visão de Deus como pórtico e meta do Espírito do educando, integrado este na economia divina, deve, por isso mesmo, postular à Pedagogia Espírita a formação religiosa dos alunos. [...] Não que vá a Pedagogia Espírita referendar ou hospedar o ensino religioso convencional. Ao contrário, cumpre-lhe idealizar conteúdos, métodos e objetivos originais, coerentes com a concepção espírita tanto do Criador, quanto da educação, educando e educador e não em desalinho dos indicadores doutrinários”.39 A Doutrina Espírita tem uma compreensão específica de Deus e essa deve “servir de centro de gravidade de um sistema próprio de Educação Religiosa”.40 “Essa formação religiosa não pode sucumbir ao dogmatismo, nem ser catequética. Deve, sim, ser conduzida pelos apelos à razão do educando com respaldo no desenvolvimento progressivo do seu senso crítico.” 41 “É indispensável [ao educador] que tenha sólida formação religiosa espírita em curso de formação e que ostente livre e consciente aceitação do princípio da existência de Deus. [...] Deve visar-se à motivação do
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37 Idem, p. 134.
38 Revista Educação Espírita, nº4 – p.33.
39 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.136.
40 Idem, p. 137.
41 Idem.
educando para amá-Lo de toda a sua alma e ao seu próximo como a si mesmo.” 42
“Fé inabalável só é a que pode encarar a razão em todas as épocas da Humanidade”. (EE – XIX, 7,3)
2.2.2 - Tomada de Consciência de Si Mesmo:
“A Educação Espírita deverá incluir entre seus fins a promoção da tomada de consciência por parte do educando, já a nível pedagógico, com o auxílio da Didática: 1) da sua origem divina; 2) de sua natureza espiritual; da sua condição de ser reencarnado. Esses objetivos concorrem [...] para o desenvolvimento da espiritualidade. As atividades, estudos, reflexões e introspecções não podem estar ausentes de um currículo autenticamente espírita, concorrendo decisivamente para a tomada de consciência indicada. [...] Para viabilizá-la, o educador espírita deverá possuir qualidades [...] de intuição profunda ordenada ao núcleo anímico do educando e à mediunidade tecnicopedagógica, obtidas em curso de pósgraduação precedido de testes vocacionais específicos. [...] A Psicologia Educacional Espírita, quando desenvolvida, haverá de indicar os meios de cumprir esses objetivos. Enquanto não dispomos dessa contribuição, não se pode furtar o educador espírita ao mister de conduzir o educando à conscientização de sua natureza essencial, de sua origem divina e de sua condição pluriexistencial”43 , recorrendo à própria intuição, imaginação e espírito prático.
“Todo ensino metódico tem que partir do conhecido para o desconhecido. Ora, para o materialista, o conhecido é a matéria: parti, pois, da matéria e tratai, antes de tudo, fazendo que ela a observe, de convencê-lo de que há nela alguma coisa que escapa às leis da matéria. numa palavra, primeiro que o tornes espírita, cuidai de torná-lo espiritualista.” (LM – III, 19)
“O conhecimento de si mesmo é a chave do progresso individual.” (LE – Q.919ª, 3)
2.2.3 – Preocupação Fundamental: Educação do Espírito.
“O Espírito é o único componente do homem que permanece na sucessão das encarnações e dos mundos pelos quais transita. Por isso, o educando deve ser visto pelo educador como caminheiro de muitas etapas. O lastro de vivência em muitas existências, soterrado em seu inconsciente, submete-o a pesadas condições, nada negligíveis. Segundo essa linha de pensamento, os quatro vetores de que dispõe o educador para atuar sobre o educando – conteúdo, método, disciplina e instituição escolar – devem ser adaptados e proporcionados à natureza espiritual do aluno.
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42 Idem.
43 Idem, p.138.
O conteúdo, ou currículo, como já vimos, deve gravitar em torno de um núcleo de motivos que promovam mais diretamente a educação do Espírito e que são: Deus, alma, conduta moral e sentimento, e daí, respectivamente, a Educação Religiosa, Educação Espiritual, Educação Moral e Educação do Sentimento.
A disciplina, ou regime de controle escolar, também deve representar um impulso diretamente ordenado à educação do Espírito. Para isso devem ser banidos os processos de castigos e recompensas, e incorporados os que formalizam a responsabilidade individual de cada discente, com fundamento nos princípios espíritas da reparação e da proporcionalidade relativa ao grau espiritual de cada um.
A instituição escolar deve proporcionar um ambiente todo penetrado de espiritualidade; bosques, jardins, recantos para meditação e prece, individuais ou coletivos, salas de música e para outras expressões artísticas. Tudo num ambiente de beleza, liberdade e confiança. Compete ao administrador escolar espírita e ao arquiteto projetarem as edificações que possam refletir e falar ao espírito do jovem.
O método [...] terá de levar em conta [que] a inteligência é a essência da alma e até com ela se confunde num princípio comum e, que o pensamento é a própria inteligência em ato. Por isso, o método recomendado será aquele que induza o exercício da razão sem perder de vista a imaginação e o sentimento. É evidente que esse apelo à inteligência deverá pautar-se pelos estágios da Psicologia Genética. É no início das operações concretas, dos sete aos doze anos de idade, e que culmina com as operações formais, mais ou menos aos onze anos, que se apresenta o período mais propício a esse desenvolvimento, conforme as pesquisas de Piaget. Esse mesmo método, que se ordena à educação do Espírito, deverá incorporar processos que auxiliem o educando a algumas intuições de seu passado anímico. A própria filosofia grega sugeriu alguns processos nesse sentido, justamente porque julgou necessários à Educação. Sócrates, pela sua maiêutica procurava fazer aflorar à consciência do interlocutor [...] as idéias inatas [...]. Desse modo, pretendia o filósofo levar o educando ao conhecimento de si mesmo. [...] Por outro lado, Platão idealizou a teoria da reminiscência, pela qual conhecer é reconhecer, o que estava subjacente no Espírito, pela contemplação das idéias perfeitas antes das almas encarnarem e que nele dormitavam, aflorando depois ao consciente pela ação do mestre. ”44
2.2.4 – O Duplo Sentido do Processo Educativo:
“[...] Allan Kardec reconhece o sentido da educação do consciente para o inconsciente ao definir a educação como ‘conjunto de hábitos adquiridos’ (LE – Q. 685 a) e a virtude como „o hábito do bem’ (LE –Q.894). Ora, esse automatismo do hábito está a indicar a sua natureza inconsciente. [...] O que, porém, pretendemos [...] é propor um segundo sentido par o processo
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44 Idem, p.140 -143.
educativo: do inconsciente para o consciente, do perispírito para o Espírito. [...] A Educação se valeria dos dois sentidos do movimento: [...] formando bons hábitos intelectuais e morais e [...] fazendo emergir, do inconsciente para o consciente, lembranças intuitivas que sejam capazes de auxiliar a compreensão da encarnação atual do educando.” 45
2.2.5 – Educação do Composto Humano:
“Se as três substâncias formativas do ser humano – corpo, perispírito e Espírito – são suscetíveis de progressivo aperfeiçoamento, isso está a indicar que clamam pela educação, aliás, como exclusivos objetos dela”. 46
Uma vez já tradado o tema da Educação do Espírito, abordaremos as demais.
- Educação do Corpo Físico:
“[...] Não pode a Educação dispensar-se de proporcionar ao corpo todo cuidado. É através dele que o Espírito recebe os influxos do meio físico e do mundo exterior. [...] Daí a justificabilidade da Educação Física, Esportes, Saúde, Higiene e Educação Sexual no currículo escolar”.47
“Amai, pois, a vossa alma, porém cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela”. (EE – XVII, 11 -2).
- Educação do Perispírito:
“À vislumbrada Pedagogia Científica Espírita (Experimental) caberá procurar caminhos e vetores para o atingimento pedagógico do perispírito. Isso pode ser conseguido segundo duas direções convergentes: a do corpo físico e a do Espírito, uma vez que o mediador plástico participa da natureza de ambos, a material e a espiritual. Dada a sua ampla fisiologia, os desarranjos do corpo fluídico poderão perturbar tanto o progresso do Espírito quanto a instrumentalidade do veículo carnal. [...] Todas as injúrias causadas ao corpo se refletem no psicossoma; logo é invencível a idéia de que os valores impressos no corpo – saúde, força, integridade, vitalidade, robustez, proporcionalidade, harmonia – também se estampem no perispírito, de alguma forma aperfeiçoando-o, educando-o. [...] O envoltório fluídico acompanha a evolução do Espírito, cujo progresso moral nele se reflete, desmaterializando-o gradualmente, purificando-o dos elementos grosseiros que contém”.48
“Por efeito do desenvolvimento moral, alarga-se o círculo das idéias e da concepção; por efeito da desmaterialização gradual do perispírito, este se purifica dos elementos grosseiros que lhe alteravam a delicadeza das percepções, o que torna mais fácil compreender-se que a
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45 Idem, p.143-144.
46 Idem, p.144.
47 Idem.
48 Idem, p. 144 -145.
ampliação de todas as faculdades acompanha o progresso do Espírito”. (GE – XVI, 9-2).
2.2.6 – Educação dos Sentimentos:
“A linha de desenvolvimento da educação confunde-se com a própria linha da evolução espiritual. Daí infere-se que o sistema pedagógico deve incorporar um conjunto harmônico e eficaz de práticas sociais a fim de ir desenvolvendo a sensibilidade para a sorte do próximo, irmão e companheiro de jornada.
[...] A descrição de (LE –Q.113) faz sistema com (EE – XI, 8-3) e que nos indica a linha [...] em correta evolução hierárquica dos valores preferenciais do Espírito em sua romagem para Deus: Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimento. E o ponto delicado do sentimento é o amor. A fim de avançar para a meta, tem a criatura que vencer os instintos, em proveito dos sentimentos, isto é, que aperfeiçoar esses últimos, sufocando os germes latentes da matéria. Os instintos são a germinação e os embriões do sentimento; trazem consigo o progresso, como a glande encerra em si o carvalho”. 49
Ney Lobo cita o pedagogo René Hubert, numa passagem em que este orienta a formação dos sentimentos sociais: “Nem sequer as lições de bondade exerceram qualquer influência sobre as crianças antes de chegarem à prépuberdade, porque em geral não têm nem experiência, nem imaginação do sofrimento , ou se o conhecem, consideram-no como um elemento da natureza das coisas e nem lhes ocorre apiedar-se dele. Bem diferente é o que ocorre com a expansão das disposições afetivas que acompanham a puberdade. Então, é quando o educador pode trabalhar utilmente ampliando os sentimentos de simpatia, que, todavia não tratam de fixar-se, iluminando-os sobre a realidade da dor e da miséria, ativando-os pelo cumprimento de atitudes suscetíveis de aliviar essas realidades. A puberdade é a idade em que, tendo já pouco a pouco se desvanecido o egocentrismo, os demais [sentimentos] começam a existir verdadeiramente e por si mesmos aos olhos do adolescente. A imaginação afetiva consiste então na capacidade de por-se no lugar deles, de sofrer com eles e ainda por eles. Este é o momento em que a revelação das grandes tristezas sociais pode comover mais profundamente a sensibilidade posta a nu. O importante é que esta impregnação pelo conhecimento da dor seja suficientemente forte, suficientemente prolongada durante todo o período da adolescência, como para manter-se como um traço essencial da estrutura moral do adulto. Graças a essas condições, adquire-se a virtude da generosidade e se forjam os homens de coração”.50
“Por essa mesma razão, sentencia a Codificação: „A vida social é a pedra de toque das boas e más qualidades‟ (CI - 1º, III, 8). [...] Infere-se daí , que a
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49 Idem, p.146.
50 Idem, p.146 -147.
educação do sentimento deve processar-se em contextos sociais que promovam intensas interações pessoais. Esses ambientes, opulentos de dependências recíprocas, de interrelações, tanto servem para a ativação do sentimento, quanto para revelar o grau de sensibilidade do educando, suas carências, qualidades e progressos”.51
3 – QUEM É O EDUCANDO?
Cumpre-nos definir agora “o universo humano a ser abrangido pela Educação Espírita. Seria concebível uma educação a termo, isto é, a formação do ser humano em período prestabelecido ao fim do qual todos os destinatários seriam considerados como tendo completado sua educação? Ou a formação humana nunca se consuma? [...] Educando é apenas a criança e o adolescente? Ou também inclui os jovens? E os adultos, igualmente? E os idosos, também não estão submetidos sutilmente a processos discretamente pedagógicos? A formação humana encerra-se com a cessação da vida convencional? Além desse termo derradeiro, nenhuma modificação ou aperfeiçoamento será possível imprimir ao Espírito? O Espírito desencarnado poderá, autenticamente, ser considerado um educando? Quais seriam, então, seus mestres? Os deficientes mentais são sensíveis ao esforço de educação? E os selvagens podem ser considerados como educandos?” 52
3.1 – EXTENSÃO DO PERÍODO DA EDUCAÇÃO.
“Num enfoque global, a educação latu sensu, inicia-se com a própria criação do Espírito (LE – Q. 122, 262, 189, 607), (GE – III, 10, fim). A partir desse marco, já se processam os primeiros progressos manifestados pela abertura da consciência de si mesmo. Em consequência, inaugura-se o livre arbítrio, dão-se os primeiros lampejos da responsabilidade, a aurora radiosa da consciência do futuro e o raiar do senso moral. Na outra ponta do roteiro, só pode ser considerado como concluído o processo quando atingido o status de puro Espírito. Desse modo, a educação participa da imortalidade do Espírito, porque o progresso é quase infinito (LE – Q.169). Isso significa que a educação, quer como processo quer como resultado é coexistente ao Espírito, abrangendo toda a extensão da sua existência imortal e ininterrupta.” 53
3.2 – TODOS OS ESPÍRITOS SÃO EDUCANDOS.
“Educandos são todos os Espíritos em qualquer situação, fase, estágio, grau ou nível em que se encontrem, ao longo de toda a vida imortal deles. Há educação antes do renascimento orgânico, durante as vidas físicas, até o desprendimento do Espírito, estendendo-se além dele em estado livre.
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51 Idem, p.147.
52 Idem, p.151.
53 Idem, p. 161.
O Espírito encarnado, quer no estado de vigília quer no de emancipação (sono ou sonambulismo), quer pela heteroeducação (sistemática ou assistemática), quer pela autoeducação, está permanentemente submetido a processos educativos e, ainda, pela ação tanto de encarnados quanto de desencarnados.
As entidades no estado livre tanto podem ser educadas por outros Espíritos desencarnados que lhe sejam superiores, como seus mestres, quanto por encarnados, pelo processo de doutrinação em sessões mediúnicas.
Essa conclusão só admite duas exceções: os puros Espíritos, que atingiram o grau máximo de educação, e certos tipos de deficientes mentais infranormais”.54
3.3 – OS DEFICIENTES MENTAIS EM INFRANORMALIDADE PROFUNDA NÃO SÃO EDUCANDOS.
“Em que pese a conclusão geral de serem educandos todos os Espíritos em qualquer situação ou condição, os seres humanos, na conjuntura de excepcionalidade negativa, estão submetidos a doloroso processo de provação. Estão saldando pesadas dívidas do pretérito delituoso. Temporariamente, não são suscetíveis de resposta ao esforço educativo [...] É uma expiação decorrente do abuso que fizeram de certas faculdades. É um estacionamento provisório (LE – Q. 373)”.55
3.4 – OS SELVAGENS TAMBÉM SÃO EDUCANDOS.
“A possibilidade de sofrer modificações, progredindo, é a primeira condição da educabilidade. Ora, os selvagens são submetidos a processo de aperfeiçoamento, embora em posição muito distante do homem civilizado. Confirma a Codificação: A alma do selvagem atingirá, pois, com o tempo, o mesmo grau da alma esclarecida (QE – III, 139)”.
3.5 – CONSEQUÊNCIAS PEDAGÓGICAS DA SOLUÇÃO ESPÍRITA:
3.5.1 - Canais da Educação.
Todos os pedagogos, educadores e filósofos trataram tão somente da educação escolar “ministrada de modo direto, intencional, sistemático, consciente e profissional, quer como missão, quer como profissão. A Filosofia Espírita da Educação está em condições de apresentar à reflexão dos estudiosos da educação mais outros doze canais de comunicação a nível espiritual, pelos quais correm também a influência pessoal educativa, a mensagem edificante, o corretivo bondoso, necessário e oportuno, a inspiração de novas idéias, a doutrinação do desviado e o conselho ao desorientado”.56
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54 Idem, p. 161-162.
55 Idem, p. 162.
56 Idem, p. 165
a) Por contato sensorial direto: “Trata-se aqui da educação convencional e formal de Espírito encarnado a outro, numa relação pedagógica de educador e educando. Geralmente, do professor ao aluno. Pode ser, ainda, dos pais aos filhos, do orientador espiritual aos discípulos; do mestre de ofício ao aprendiz; do iniciador ao iniciando. É a única conhecida e estudada”.57
b) Por telegrafia humana ou espiritual, de vivente a vivente, em vigília: “É uma ligação intervivos apresentada pela Codificação Espírita, a qual, ao seu tempo, Kardec denominou telegrafia humana. Trata-se de uma comunicação direta e telepática de Espírito a Espírito, ambos encarnados, não adormecidos. Para isso será necessário que seus espíritos se desprendam em parte da matéria, o que depende de um certo grau de depuração, muito raro no estado atual da Humanidade. Todavia, como sempre que há um canal de comunicação, por essa mesma razão, estende-se, paralelo, uma canal de educação, através do qual circula o fluxo instrutivo, esta será uma direção a mais no plano terreno da malha de canais utilizáveis educacionalmente”.58
(LM – XXV, 285, 58); (LE – Q.420, 421); (OP – 10, p. 16 a 22).
c) Por evocação ou simples simpatia, de vivente a vivente, em vigília: “Por evocação de um deles, dois Espíritos encarnados podem entrar em comunicação e, por isso mesmo, um poderá influir sobre o outro, exercendo salutar ação educativa sob forma de inspiração, conselho, instrução, etc. Todavia, é necessário que o Espírito do evocado – educando, no caso – esteja parcialmente desprendido da matéria, um pouco adormecido. A própria evocação do Espírito acordado provocará um leve adormecimento, um ligeiro torpor. Outras condições são necessárias: vontade enérgica do evocador e laços de simpatia entre as duas pessoas”.59
(LM – XXV, 284, 43 a 49); (LE – Q.421).
d) Por emancipação, de vivente a vivente, dormindo ou em estado sonambúlico: “Durante o sono, ou no estado sonambúlico, afrouxando-se os laços que o ligam ao corpo, pode um Espírito entrar em ligação mais direta com outro Espírito também emancipado, podendo o que for superior produzir no outro um efeito educativo, assumindo um a posição de educador e o outro a de educando”.60
(LE – Q.401, 402, 410, 414, 415, 416, 417, 419, 455); (GE – XIV, 22, 23).
e) Pelo pensamento, de Espírito desencarnado a Espírito desencarnado: “Os espíritos desencarnados comunicam entre si através do meio chamado fluído universal, como veículo de transmissão de seus pensamentos. Nessa situação, orientados por espíritos que lhe são superiores, realizam estudos, procuram meios para elevar-se, ouvem as dissertações e os conselhos dos
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57 Idem, p. 165.
58 Idem, p.165 -167.
59 Idem, p. 167.
60 Idem.
mais elevados, procuram instruir-se e promovem pesquisas. Sempre dispõem de um educador ou guia que os aperfeiçoa e até aprendem numa hora o que na Terra exigiria anos de aprendizado (LE –Q.98). As suas idéias sofrem grandes modificações. Mesmo os espíritos atrasados ou recalcitrantes não podem se furtar a esses ensinos, pois são obrigados a ouvir os conselhos dos espíritos bons, e tudo que possa ser útil ao seu aperfeiçoamento”.61
(QE – II, 156); (LE – Q.224b, 227, 230, 231, 235, 257, 266, 282, 318, 888, 898).
f) Por incorporação, de pessoa viva a Espírito desencarnado: “A doutrinação tem por agente (educador) o dirigente de mesa em sessão mediúnica e por paciente o Espírito desencarnado (educando) incorporado em um médium. Pela doutrinação, podem os Espíritos imperfeitos ser desviados do mal; podem ser ajudados a reconhecer seu estado e a se desprender da matéria para encetar o seu aperfeiçoamento. Essa relação pedagógica exige ascendência moral do educador (doutrinador), aliás como em todas as outras relações educativas”.62
(CI – I, XI, 15); (LM – XXI, 213 – 4); (LM – XXIII, 254 – 5).
g) Por mensagens, influência, inspiração, etc., de Espírito desencarnado a pessoas vivas: “Este canal de comunicação presta-se à ação educativa pelos processos de influência espiritual superior, inspiração de boas idéias e resoluções sadias, mensagens de alto teor moral ou instrutivas, orais ou escritas. As mensagens podem ser individualizadas, com endereço pessoal, ou podem servir a milhares ou milhões de pessoas, como as que se encontram psicografadas nos livros dos grandes médiuns. O conjunto dessas obras constitui verdadeira enciclopédia de educação moral e intelectual. Mesmo fora das sessões mediúnicas, os Espíritos desencarnados superiores influem beneficamente sobre nossos pensamentos, induzindo a nossa evolução educativa”.63
(LM – X, 137); (LE – Q. 459, 460, 461, 462, 464); (OP – p.62, Inspiração).
h) Por contato dos Espíritos de pessoa viva, em vigília, a Espírito emancipado: “É um canal de comunicação que admitimos como possível, por dedução, a partir da possibilidade real e efetiva de duas pessoas vivas, em vigília, poderem comunicar-se por evocação; se um deles já se acha emancipado, torna esse contato bem mais fácil. É tão viável este canal de educação que se desenvolvem estudos, pesquisas e tentativas ainda incipientes e pouco cautelosas para o ensino de línguas estrangeiras a alunos adormecidos, inclusive com lições gravadas. Deus outorgou ao homem a faculdade sonambúlica para fim útil e sério (LE – q. 425). Acrescente-se mais: o estado sonambúlico pode ser provocado. Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno psicológico, é uma luz projetada sobre a Psicologia. É aí que se pode estudar a alma, porque é onde esta se mostra a descoberto (LE – Q. 455). O sonambulismo será igualmente a base da Psicologia Educacional”.64
(LM – XXV, 47); (LM – Q. 406, 455 – 9); (OP – p. 51 e 62).
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61 Idem, p. 167-168.
62 Idem, p. 168.
63 Idem.
64 Idem, p. 169.
ESTUDO DA OBRA: FILOSOFIA ESPÍRITA DA EDUCAÇÃO - PARTE 1
FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
Extraídos da obra do Prof. NEY LOBO: “Filosofia Espírita da Educação e suas Consequências Pedagógicas e Administrativas”
I – APRESENTAÇÃO:
Os resultados contraditórios das experiências metodológicas e práticas educacionais, espiritualistas ou não, ensejam crescente demanda por uma Pedagogia referendada no Pentateuco Kardeciano e nas subseqüentes produções de filósofos e educadores espíritas.
Este estudo apresentará alguns fundamentos teóricos e metodológicos extraídos da obra do filósofo e educador Prof. Ney Lobo, cuja perspectiva é a da Educação do Espírito.
Buscamos, assim, tornar acessíveis a um público heterogêneo de adeptos e simpatizantes da Doutrina Espírita os paradigmas da Filosofia Espírita da Educação, a fim de contribuir com o estabelecimento da base conceitual e metodológica para sua aplicação prática.
II – O FATO EDUCATIVO, SEUS FATORES E DELIMITAÇÃO:
Segundo Ney Lobo, “quando assistimos a um fato educativo, verificamos sempre duas pessoas numa relação específica e em posições diferentes e simétricas, uma na qualidade de educador e outra na de educando. Ambas são portadoras, uma mais conscientemente que a outra, das tradições históricoculturais, dos valores cultuados, dos objetivos e aspirações coletivos e dos despojos das gerações anteriores; ambas emergem de um contexto físico, social, cultural e econômico cujos traços se engastam em suas personalidades individuais. A esse complexo determinante chamamos [...] de ambiente sociocultural. Como causa subjacente e atuante em todo fato educativo, ele se expressa em todos os demais fatores que o compõe. O duo pedagógico mestre-discípulo, todavia, [...] está localizado, enquadrado numa organização por mais elementar e primitiva que seja: é a instituição escolar, através da qual o ambiente sociocultural dispõe da sua mais efetiva expressão. A instituição como um todo e o educador por ela e por si mesmo, motivados e impulsionados pelo ambiente sociocultural, vão transfigurando os seus elementos inconscientes em sentimentos que se vão revestindo de formas conscientes e objetivadas aqui e ali, como metas e fins educacionais de suas ações pedagógicas. Pressentidas e conscientizadas essas finalidades, o educador e a instituição escolar escolhem meios e instrumentos de ação sobre o educando que conduzam a esses fins. Esses meios são o conteúdo cultural (currículo), o método pedagógico e o controle disciplinar” 1. Daí se depreende ser o educador “expressão e projeção do contexto histórico/sócio/cultural de uma sociedade, que atua sobre o educando através de um método, currículo, disciplina e instituição escolar visando determinados fins educacionais” 2.
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1 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p. 66.
2 Idem, p. 67.
III – DOS FATOS AOS ATOS EDUCATIVOS:
3
1 – Da Filosofia Espírita à Filosofia Espírita da Educação
Posicionamento e função do Filósofo de Educação:
Encontramos nos fatos educativos o ponto de partida de todo um encadeamento educacional posterior. Eles são “evidentes, espontâneos naturais, primitivos, empíricos, opacos... Simplesmente estão aí".4
Podem ser visualizados nas relações cotidianas dentro da família, num grupo primitivo de adultos e seus filhos a coletar e caçar, ou mesmo em cenas de esclarecimento a espíritos sofredores, psicografias ou psicofonias de orientadores desencarnados em reuniões mediúnicas, no estudo e ensino de Evangelho e Doutrina a crianças e jovens, etc.
“Essa relação pedagógica simples, natural, é sintetizada pela expressão é feito assim... nada mais. [...] Porém, esse fenômeno diretamente visto pelo observador, apesar de cauteloso, sincero e profundo, no caso, o pensador espírita, exibe alguma incongruência com a Codificação Kardeciana, as quais esse pensador não consegue formalizar e muito menos expressar. Sente ele um constrangimento e insatisfação doutrinários, a angústia de confrontar o que vê (o fato) com o que aspira vagamente. [...] A sua Doutrina não se acomoda ao fato; o fato não espelha a Doutrina.” 5
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3 Idem, p. 69.
4 Idem, p. 71.
5 Idem, p.71.
Movido interiormente a buscar o “equilíbrio ou nivelamento do ideal – confuso e difuso – com o real, patente, cru, evidente, irrecusável” 6, o observador espírita é impelido a produzir trabalho, qual seja, a reflexão sobre os fatos educativos.
“Para fecundar essa realidade educativa, o pensador interpõe entre o fato e sua mente uma filosofia – a Filosofia Espírita – uma visão profunda (e cósmica) do real. Da sinergia entre fatos e filosofia resultará a Filosofia Espírita da Educação, que “não poderá surgir de uma singela reflexão sobre os fatos educativos encontrados no dia-a-dia das atividades docentes: deles se serve o pensador espírita, considerando-os para, no enfoque filosófico, buscar a orientação superior para aperfeiçoá-los, transformando-os em atos educativos”. 7
2 – Da Filosofia Espírita da Educação à Pedagogia Espírita
Posicionamento e Função do Pedagogo Espírita:
Sob o olhar do pedagogo espírita, o fato educativo bruto também exibe incongruências com a Codificação Kardeciana, suscitando o mesmo desafio provocativo e as mesmas conclusões que ao filósofo: a necessidade de eliminar o desnível Doutrina-realidade. Para tanto, serve-se não da Filosofia Espírita, mas de “uma especialização dela já ordenada à área da Educação: a Filosofia Espírita da Educação”.8
Assim, os elementos do fato educativo são ”transformados e elevados a conhecimentos, diretrizes e normas sob a ação dissociadora da reflexão crítica do pedagogo espírita [...] alcançando um conjunto de princípios normativos e teorias e formando um corpo doutrinário educacional já ordenado para a prática. Esse conjunto recebe, complementarmente, o influxo e a dinamização das ciências auxiliares Psicologia Educacional, Sociologia Educacional, Biologia Educacional e Administração Escolar Espíritas. O produto final será um todo orgânico denominado Pedagogia Espírita.” 9
3 – Da Pedagogia Espírita à Didática Espírita
Posicionamento e Função do Didata Espírita:
Diferentemente do filósofo e do pedagogo, o didata espírita está voltado, não para o fato educativo globalmente considerado, mas apenas para um de seus elementos: a aprendizagem.
Analisando-a segundo os conhecimentos que estruturam a Pedagogia Espírita, alcançará “um bem coordenado conjunto de procedimentos, normas operativas, métodos e técnicas educacionais e de ensino (captado pela observação indireta e crítica da aprendizagem através da Pedagogia Espírita),
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6 Idem, p.73.
7 Idem, p.73.
8 Idem, p.75.
9 Idem, p.76.
por intermédio da observação aliada à pesquisa, imaginação criadora e invenção e que possa por em prática as teorias e diretrizes pedagógicas espíritas”. 10
4 – Da Didática Espírita à Educação Espírita
Posicionamento e Função do Educador Espírita:
Também ao educador espírita, “o empirismo rotineiro e mecânico da aprendizagem que ele testemunha o desassossega, e não descansará senão quando conseguir dar fundamento espiritual à arte de ensinar. Para isso, lançará mão da Didática Espírita para focalizar o fato primordial através dela”.11
A partir de então, a ação educativa se desenvolverá por “uma sequência de atos educativos, docentes e discentes, reagindo sinergicamente entre si, programados, motivados, dirigidos, fundamentados na Pedagogia Espírita, corporificados e idealizados através da Didática Espírita pela capacidade de intuição, imaginação criadora, improvisação e espírito prático, não teorizáveis. Todas essas funções sublimadas num impulso de simpatia sustentada pela força construtiva e ordenadora do AMOR”. 12
5 – Conclusão:
No “ciclo genético que se originou no fato educativo bruto e encerrou-se no ato educativo elaborado, através das instâncias Filosofia, Filosofia da Educação, Pedagogia, Didática e Educação” 13, quem se destaca mais? Qual será o personagem imprescindível?
“A educação durante muito tempo se processou e pode se processar, como, aliás, ainda acontece em algumas comunidades, sem o filósofo da educação e sem o pedagogo, produtos tardios na História da Educação; pode haver educação até mesmo sem o didata. Mas nunca houve, não há, não haverá nem pode haver educação, pelo menos no sentido convencional, sem esse agente: o educador. É o elo entre as gerações que se sucedem, entre as quais se transmite a herança cultural, quer seja ele o mestre, o pai, o guia espiritual, o sacerdote, o filósofo, o político, enfim, qualquer líder que oriente e conduza as coletividades”. 14
Essa imprescindibilidade do educador, entretanto, “só é válida quando se considera a constelação do filósofo, pedagogo, didata e educador. Mas, considerado no grupo de fatores (educando, educador, fins, disciplina, método, conteúdo e instituição), o educador pode desaparecer no processo de chamado de autoeducação.15
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10 Idem, p.82.
11 Idem, p.82.
12 Idem, p.83.
13 Idem, p.85
14 Idem, p.85
15 Idem, Nota de rodapé, p.85.
16
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16 Idem, p.72.
17 Idem, p.87.
IV – DIVERSAS POSIÇÕES FILOSÓFICAS:
Para Theobaldo Miranda, “múltiplos e variados são os fatores que atuam sobre o desenvolvimento do homem. Nem todos, porém, fazem parte do âmbito da Educação, que deve ser considerada, não como processo espontâneo e natural, mas como formação consciente de novas gerações, de acordo com os valores e ideais de cada povo e de cada época. [...] Todavia, apesar de seu caráter universalista, a Educação tem recebido ao longo da história, as mais diversas e variadas definições” 18.
Segundo ele, tanto as definições antigas quanto as modernas elegem a perfeição do homem como o objetivo essencial da Educação. Mas, “essa concordância aparente nas definições esconde uma divergência profunda e radical de pontos de vista, pois o conceito de perfeição varia com a idéia que o educador possui da natureza e do destino do homem. Donde a necessidade de se conhecer a filosofia de vida do educador para se poder penetrar na essência do seu conceito de educação”.19
Por isso afirma Ney Lobo que “toda Filosofia gera uma Ética; toda Ética efetiva-se pela Educação e toda Educação requer a Filosofia Educacional e Pedagogia correspondentes”.20
Do ponto de vista ocidental, uma “análise serena e objetiva dos conceitos de educação que se destacam no panorama da pedagogia contemporânea nos leva a concluir que, se excetuarmos o conceito cristão, todos os outros se fundamentam em concepções fragmentárias e unilaterais da realidade e, por isso, não abrangem o processo educativo em toda a sua amplitude e integridade. O naturalismo considera a natureza como o valor supremo da vida e da educação; o idealismo, a idéia ou espírito; o pragmatismo, a ação; o socialismo, a sociedade; o individualismo, o indivíduo; o nacionalismo, a nação ou a raça; o culturalismo, a cultura. A pedagogia cristã reúne numa síntese orgânica e harmoniosa as parcelas da verdade que se encontram dispersas nos outros sistemas pedagógicos. Não porque seja uma concepção eclética e superficial das coisas, mas porque considera a realidade em toda a sua inteireza e plenitude”. 21
“Educação”, diz Mantovani, “é a formação do homem somente realizável dentro do mundo humano [...] não deve visar somente à vida nem unicamente ao espiritual. [...] Não é apenas estímulo ao desenvolvimento da natureza nem cultivo exclusivo da subjetividade. É muito mais. É um processo de formação plena sob a influência de bens e valores espirituais.” (Educación y Plenitud Humana, Buenos Aires, 1944, p.38.) 22.
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18 Noções de Filosofia da Educação, vol. 1, p.41.
19 Idem, p. 42.
20 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.50-53
21 Noções de Filosofia da Educação, Theobaldo Miranda Santos, vol. 1, p.68 . São Paulo, 1969.
22 Idem, nota de rodapé, p.68.
“Reflexo fiel do ritmo espiritual e da concepção de vida de cada época, a pedagogia atual é bem o atestado vivo e eloqüente da desorientação do pensamento filosófico moderno. Daí a multiplicidade desconcertante de tendências e posições da pedagogia moderna. [...] Se analisarmos, porém, os fundamentos metafísicos dessas múltiplas correntes pedagógicas, chegaremos à conclusão que elas podem ser filiadas a dois grandes sistemas filosófico-pedagógicos: o Naturalismo e o Antinaturalismo Pedagógico”. 23
1 - NATURALISMO PEDAGÓGICO:
“O fundamento filosófico do Naturalismo Pedagógico contemporâneo é a negação explícita ou implícita dos valores transcendentes e a consideração do homem e do universo como as únicas realidades existentes [...] e vem dominando o pensamento ocidental desde o Renascimento (ainda que suas raízes mergulhem mais longe) até os nossos dias, através de cinco grandes movimentos filosóficos e culturais: Neo-Humanismo Pagão, Realismo, Racionalismo, Idealismo e Cientificismo (Positivismo e Evolucionismo). Foram, portanto precursores do Naturalismo Pedagógico contemporâneo RABELAIS, BACON, DESCARTES, ROUSSEAU, KANT, FICHTE, HEGEL, PESTALOZZI, FROEBEL, HERBART, COMTE e SPENCER. Uma filosofia antiespiritualista da vida é, assim, a base metafísica do Naturalismo Pedagógico. Mas outros fatores favoreceram sua eclosão: [...] o progresso das ciências experimentais, o desenvolvimento da indústria, a importância crescente da máquina e a influência cada vez maior das doutrinas políticas sobre o terreno da educação.” 24
“Como obra da natureza, sou um animal perfeito. Como obra de mim mesmo, esforço-me pela perfeição. Como obra da espécie, procuro me tranqüilizar num ponto sobre o qual a perfeição de mim mesmo não é possível. A natureza fez a sua obra inteira, assim também faze a tua. Reconhece-te a ti mesmo e constrói a obra do teu enobrecimento sobre a consciência profunda de tua natureza animal, mas também com a consciência completa da tua força interior de viver divinamente no meio dos laços da carne”. (Trechos extraídos do Livro “Minhas indagações sobre a marcha da natureza no desenvolvimento da espécie humana” , Pestalozzi , 1797). 25
Por representantes de diversas subcorrentes do Naturalismo Pedagógico, vamos encontrar, entre muitos outros, grande nomes como: BALDWIN, STANLEY HALL, PIAGET, PAVLOV, JUNG, FREUD, Marx, durkheim.
2 - ANTINATURALISMO PEDAGÓGICO:
“Se o Naturalismo Pedagógico subordina Deus ao homem e este à natureza, o Antinaturalismo Pedagógico subordina a natureza ao homem e este a Deus. O fundamento metafísico do Antinaturalismo Pedagógico e, portanto, de uma concepção espiritualista da vida, é a afirmação da existência
_________________________
23 Idem, p. 82.
24 Idem, p. 83.
25 Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Heinrich_Pestalozzi. Acesso em 27/03/2011.
de valores absolutos e eternos, é a consideração do homem como dotado de uma alma livre e imortal. Entre os fatores que favorecem o surgimento do Antinaturalismo Pedagógico em nossos dias, se destacam: o fracasso do absolutismo científico (positivista ou evolucionista), o desprestígio das soluções relativistas do idealismo kantiano, o renascimento da metafísica e a irradiação crescente da religião cristã. Podemos, entretanto, discernir no antinaturalismo pedagógico, duas grandes tendências: uma transcendentalista e outra imanentista. A primeira é constituída pelas correntes pedagógicas que admitem a existência de valores sobrenaturais e de realidades transcendentes. A segunda é representada pelas correntes que, embora não admitindo a existência de realidades supraterrenas, afirmam com tanta insistência e vigor a primazia do espírito, da personalidade, da vida e da cultura que constituem como que um impulso ao transcendente. 26
“Entre os transcendentalistas, podemos assinalar duas tendências distintas: a pedagogia espiritualista cristã e a pedagogia espiritualista acristã. Entre os educadores cristãos, ocupam lugar de relevo os nomes de SPALDING, WILLMANN, PAULSEN, FOERSTER, KIDD, MERCIER, DE HOVRE, BOPP, BEHN, PETER WUST, EGGERDOFEER, ETTLINGER, GUARDINI, GUARDINI SCHOROETEL, BUTLER e SHIELDS. Destacam-se entre os educadores espiritualistas acristãos: BOUTROUX, BERGSON, EUCKEN, DILTHEY, MAX SCHELER, SPANN e SPEARMAN. Entre os imanentistas, distinguem-se numerosas subcorrentes, dentre as quais podemos assinalar: a culturalista, com RICKERT, SPRANGER, LITT e NOHL; a fenomenológica, HUSSERL, GEIGER, PFÄNDER e VIALLETON; a existencialista, com HEIDEGGER e KARL JASPER; a neovitalista, com DRIESCH, UEXKÜLL e VIALLETON; a finalista ou hórmica, com MCDOUGALL; a caracterológica, com LUDWIG KLAGES e HANS PRINSHORN. Eis, pois assinaladas, de maneira mais que esquemática, as grandes diretrizes da pedagogia no século XX. Como acabamos de verificar, todas essas múltiplas correntes, tendências e escolas, se fundamentam explícita ou implicitamente, numa concepção filosófica do homem, da vida e do universo”.27
3 – CONCLUSÃO:
“A primeira conclusão que logo se impõe ao nosso espírito é a da ilusão dos que ainda acreditam, candidamente, numa educação inteiramente neutra ou numa pedagogia exclusivamente técnica. Ora, a educação é uma atividade essencialmente normativa, que se processa sempre no sentido de determinados fins. Educar é formar de acordo com um ideal”. 28
____________________________
26 Noções de Filosofia da Educação, vol. 1, p.86. Theobaldo Miranda Santos, São Paulo, 1969.
27 Idem.
28 Idem, p. 86-87.
IV – ANTROPOLOGIA PEDAGÓGICA ESPÍRITA: O EDUCANDO.
1 – Referências Evangélicas e Doutrinárias:
“Não é o discípulo mais que o mestre”. (Mat. 10,24.)
“O discípulo não é superior ao seu mestre, mas todo o que for perfeito será como seu mestre”. (Luc. 6, 40)
“DEIXAI QUE VENHAM A MIM AS CRIANCINHAS”. (Mat. 5, 8)
“Profundas em sua simplicidade, essas palavras não continham um simples chamamento dirigido às crianças [...] JESUS chamava a si a infância intelectual da criatura formada: os fracos, os escravizados e os viciosos [...] Deixai vir a mim todos os que, tímidos e débeis, necessitam de amparo e consolação. Deixai vir a mim os ignorantes, para que eu os esclareça. Deixai vir a mim todos os que sofrem, a multidão dos aflitos e dos desafortunados.”
(EE – VIII, 18e19)
“Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos, a mim o fareis”. (Mat. – 25:40)
“Aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe”. (Mat. – 18:1-3)
2 – O QUE É O EDUCANDO?
“O educando é o único fator na composição do fato educativo cuja presença nunca foi questionada”.29 Esse termo tem se destacado entre outros (aluno, discípulo, aprendiz, etc.) por exprimir “o dinamismo da educação; dá a idéia de um processo em realização e não de um processo acabado”.30
O conceito que se fizer do educando refletirá a compreensão que se tem sobre o homem e seu destino. Assim, cada posição filosófica o apreende de forma peculiar, com determinados atributos e características, o que pode variar muito e mais: determinar o papel do educador, o método, a disciplina, o currículo, a instituição escolar e a própria finalidade da educação conforme seu ponto de vista.
Dentre as várias correntes de pensamento existentes citadas e analisadas por Ney Lobo, destacamos: a que compreende o homem como simples animal, sem liberdade e sem vida moral e lhe atribui uma bondade congênita (Naturalismo Pedagógico); a que, ao contrário, o compreende como união substancial entre corpo físico e alma espiritual, possuidor de uma natureza decaída (pecado original) e principal agente de sua própria educação (Supernaturalismo Pedagógico); a que o vê como animal racional, dotado de elevada dignidade pessoal, não decaído e, ocupando papel central no universo, possuidor de um fim em si mesmo e não para a vida eterna ou para o Estado (Humanismo Pedagógico). Ainda temos os que o crêem herdeiro da cultura (Culturalismo Pedagógico); ou como ser preponderantemente espiritual, educador de si mesmo e submisso ao Estado (Idealismo Pedagógico). Encontramos também os que o pensam produto da nação e herdeiro do capital nacional (Nacionalismo Pedagógico); os que o vêem como sujeito só de direitos (Individualismo Pedagógico) ou, ao contrário, produto do meio social, tendo a comunidade como substrato da vida do espírito (Socialismo Pedagógico).
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29 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.94.
30 Noções de Pedagogia Científica, p.70. Theobaldo Miranda Santos- Cia Editora Nacional, SP, 1963.
Extraídos da obra do Prof. NEY LOBO: “Filosofia Espírita da Educação e suas Consequências Pedagógicas e Administrativas”
I – APRESENTAÇÃO:
Os resultados contraditórios das experiências metodológicas e práticas educacionais, espiritualistas ou não, ensejam crescente demanda por uma Pedagogia referendada no Pentateuco Kardeciano e nas subseqüentes produções de filósofos e educadores espíritas.
Este estudo apresentará alguns fundamentos teóricos e metodológicos extraídos da obra do filósofo e educador Prof. Ney Lobo, cuja perspectiva é a da Educação do Espírito.
Buscamos, assim, tornar acessíveis a um público heterogêneo de adeptos e simpatizantes da Doutrina Espírita os paradigmas da Filosofia Espírita da Educação, a fim de contribuir com o estabelecimento da base conceitual e metodológica para sua aplicação prática.
II – O FATO EDUCATIVO, SEUS FATORES E DELIMITAÇÃO:
Segundo Ney Lobo, “quando assistimos a um fato educativo, verificamos sempre duas pessoas numa relação específica e em posições diferentes e simétricas, uma na qualidade de educador e outra na de educando. Ambas são portadoras, uma mais conscientemente que a outra, das tradições históricoculturais, dos valores cultuados, dos objetivos e aspirações coletivos e dos despojos das gerações anteriores; ambas emergem de um contexto físico, social, cultural e econômico cujos traços se engastam em suas personalidades individuais. A esse complexo determinante chamamos [...] de ambiente sociocultural. Como causa subjacente e atuante em todo fato educativo, ele se expressa em todos os demais fatores que o compõe. O duo pedagógico mestre-discípulo, todavia, [...] está localizado, enquadrado numa organização por mais elementar e primitiva que seja: é a instituição escolar, através da qual o ambiente sociocultural dispõe da sua mais efetiva expressão. A instituição como um todo e o educador por ela e por si mesmo, motivados e impulsionados pelo ambiente sociocultural, vão transfigurando os seus elementos inconscientes em sentimentos que se vão revestindo de formas conscientes e objetivadas aqui e ali, como metas e fins educacionais de suas ações pedagógicas. Pressentidas e conscientizadas essas finalidades, o educador e a instituição escolar escolhem meios e instrumentos de ação sobre o educando que conduzam a esses fins. Esses meios são o conteúdo cultural (currículo), o método pedagógico e o controle disciplinar” 1. Daí se depreende ser o educador “expressão e projeção do contexto histórico/sócio/cultural de uma sociedade, que atua sobre o educando através de um método, currículo, disciplina e instituição escolar visando determinados fins educacionais” 2.
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1 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p. 66.
2 Idem, p. 67.
III – DOS FATOS AOS ATOS EDUCATIVOS:
3
1 – Da Filosofia Espírita à Filosofia Espírita da Educação
Posicionamento e função do Filósofo de Educação:
Encontramos nos fatos educativos o ponto de partida de todo um encadeamento educacional posterior. Eles são “evidentes, espontâneos naturais, primitivos, empíricos, opacos... Simplesmente estão aí".4
Podem ser visualizados nas relações cotidianas dentro da família, num grupo primitivo de adultos e seus filhos a coletar e caçar, ou mesmo em cenas de esclarecimento a espíritos sofredores, psicografias ou psicofonias de orientadores desencarnados em reuniões mediúnicas, no estudo e ensino de Evangelho e Doutrina a crianças e jovens, etc.
“Essa relação pedagógica simples, natural, é sintetizada pela expressão é feito assim... nada mais. [...] Porém, esse fenômeno diretamente visto pelo observador, apesar de cauteloso, sincero e profundo, no caso, o pensador espírita, exibe alguma incongruência com a Codificação Kardeciana, as quais esse pensador não consegue formalizar e muito menos expressar. Sente ele um constrangimento e insatisfação doutrinários, a angústia de confrontar o que vê (o fato) com o que aspira vagamente. [...] A sua Doutrina não se acomoda ao fato; o fato não espelha a Doutrina.” 5
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3 Idem, p. 69.
4 Idem, p. 71.
5 Idem, p.71.
Movido interiormente a buscar o “equilíbrio ou nivelamento do ideal – confuso e difuso – com o real, patente, cru, evidente, irrecusável” 6, o observador espírita é impelido a produzir trabalho, qual seja, a reflexão sobre os fatos educativos.
“Para fecundar essa realidade educativa, o pensador interpõe entre o fato e sua mente uma filosofia – a Filosofia Espírita – uma visão profunda (e cósmica) do real. Da sinergia entre fatos e filosofia resultará a Filosofia Espírita da Educação, que “não poderá surgir de uma singela reflexão sobre os fatos educativos encontrados no dia-a-dia das atividades docentes: deles se serve o pensador espírita, considerando-os para, no enfoque filosófico, buscar a orientação superior para aperfeiçoá-los, transformando-os em atos educativos”. 7
2 – Da Filosofia Espírita da Educação à Pedagogia Espírita
Posicionamento e Função do Pedagogo Espírita:
Sob o olhar do pedagogo espírita, o fato educativo bruto também exibe incongruências com a Codificação Kardeciana, suscitando o mesmo desafio provocativo e as mesmas conclusões que ao filósofo: a necessidade de eliminar o desnível Doutrina-realidade. Para tanto, serve-se não da Filosofia Espírita, mas de “uma especialização dela já ordenada à área da Educação: a Filosofia Espírita da Educação”.8
Assim, os elementos do fato educativo são ”transformados e elevados a conhecimentos, diretrizes e normas sob a ação dissociadora da reflexão crítica do pedagogo espírita [...] alcançando um conjunto de princípios normativos e teorias e formando um corpo doutrinário educacional já ordenado para a prática. Esse conjunto recebe, complementarmente, o influxo e a dinamização das ciências auxiliares Psicologia Educacional, Sociologia Educacional, Biologia Educacional e Administração Escolar Espíritas. O produto final será um todo orgânico denominado Pedagogia Espírita.” 9
3 – Da Pedagogia Espírita à Didática Espírita
Posicionamento e Função do Didata Espírita:
Diferentemente do filósofo e do pedagogo, o didata espírita está voltado, não para o fato educativo globalmente considerado, mas apenas para um de seus elementos: a aprendizagem.
Analisando-a segundo os conhecimentos que estruturam a Pedagogia Espírita, alcançará “um bem coordenado conjunto de procedimentos, normas operativas, métodos e técnicas educacionais e de ensino (captado pela observação indireta e crítica da aprendizagem através da Pedagogia Espírita),
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6 Idem, p.73.
7 Idem, p.73.
8 Idem, p.75.
9 Idem, p.76.
por intermédio da observação aliada à pesquisa, imaginação criadora e invenção e que possa por em prática as teorias e diretrizes pedagógicas espíritas”. 10
4 – Da Didática Espírita à Educação Espírita
Posicionamento e Função do Educador Espírita:
Também ao educador espírita, “o empirismo rotineiro e mecânico da aprendizagem que ele testemunha o desassossega, e não descansará senão quando conseguir dar fundamento espiritual à arte de ensinar. Para isso, lançará mão da Didática Espírita para focalizar o fato primordial através dela”.11
A partir de então, a ação educativa se desenvolverá por “uma sequência de atos educativos, docentes e discentes, reagindo sinergicamente entre si, programados, motivados, dirigidos, fundamentados na Pedagogia Espírita, corporificados e idealizados através da Didática Espírita pela capacidade de intuição, imaginação criadora, improvisação e espírito prático, não teorizáveis. Todas essas funções sublimadas num impulso de simpatia sustentada pela força construtiva e ordenadora do AMOR”. 12
5 – Conclusão:
No “ciclo genético que se originou no fato educativo bruto e encerrou-se no ato educativo elaborado, através das instâncias Filosofia, Filosofia da Educação, Pedagogia, Didática e Educação” 13, quem se destaca mais? Qual será o personagem imprescindível?
“A educação durante muito tempo se processou e pode se processar, como, aliás, ainda acontece em algumas comunidades, sem o filósofo da educação e sem o pedagogo, produtos tardios na História da Educação; pode haver educação até mesmo sem o didata. Mas nunca houve, não há, não haverá nem pode haver educação, pelo menos no sentido convencional, sem esse agente: o educador. É o elo entre as gerações que se sucedem, entre as quais se transmite a herança cultural, quer seja ele o mestre, o pai, o guia espiritual, o sacerdote, o filósofo, o político, enfim, qualquer líder que oriente e conduza as coletividades”. 14
Essa imprescindibilidade do educador, entretanto, “só é válida quando se considera a constelação do filósofo, pedagogo, didata e educador. Mas, considerado no grupo de fatores (educando, educador, fins, disciplina, método, conteúdo e instituição), o educador pode desaparecer no processo de chamado de autoeducação.15
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10 Idem, p.82.
11 Idem, p.82.
12 Idem, p.83.
13 Idem, p.85
14 Idem, p.85
15 Idem, Nota de rodapé, p.85.
16
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16 Idem, p.72.
17 Idem, p.87.
IV – DIVERSAS POSIÇÕES FILOSÓFICAS:
Para Theobaldo Miranda, “múltiplos e variados são os fatores que atuam sobre o desenvolvimento do homem. Nem todos, porém, fazem parte do âmbito da Educação, que deve ser considerada, não como processo espontâneo e natural, mas como formação consciente de novas gerações, de acordo com os valores e ideais de cada povo e de cada época. [...] Todavia, apesar de seu caráter universalista, a Educação tem recebido ao longo da história, as mais diversas e variadas definições” 18.
Segundo ele, tanto as definições antigas quanto as modernas elegem a perfeição do homem como o objetivo essencial da Educação. Mas, “essa concordância aparente nas definições esconde uma divergência profunda e radical de pontos de vista, pois o conceito de perfeição varia com a idéia que o educador possui da natureza e do destino do homem. Donde a necessidade de se conhecer a filosofia de vida do educador para se poder penetrar na essência do seu conceito de educação”.19
Por isso afirma Ney Lobo que “toda Filosofia gera uma Ética; toda Ética efetiva-se pela Educação e toda Educação requer a Filosofia Educacional e Pedagogia correspondentes”.20
Do ponto de vista ocidental, uma “análise serena e objetiva dos conceitos de educação que se destacam no panorama da pedagogia contemporânea nos leva a concluir que, se excetuarmos o conceito cristão, todos os outros se fundamentam em concepções fragmentárias e unilaterais da realidade e, por isso, não abrangem o processo educativo em toda a sua amplitude e integridade. O naturalismo considera a natureza como o valor supremo da vida e da educação; o idealismo, a idéia ou espírito; o pragmatismo, a ação; o socialismo, a sociedade; o individualismo, o indivíduo; o nacionalismo, a nação ou a raça; o culturalismo, a cultura. A pedagogia cristã reúne numa síntese orgânica e harmoniosa as parcelas da verdade que se encontram dispersas nos outros sistemas pedagógicos. Não porque seja uma concepção eclética e superficial das coisas, mas porque considera a realidade em toda a sua inteireza e plenitude”. 21
“Educação”, diz Mantovani, “é a formação do homem somente realizável dentro do mundo humano [...] não deve visar somente à vida nem unicamente ao espiritual. [...] Não é apenas estímulo ao desenvolvimento da natureza nem cultivo exclusivo da subjetividade. É muito mais. É um processo de formação plena sob a influência de bens e valores espirituais.” (Educación y Plenitud Humana, Buenos Aires, 1944, p.38.) 22.
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18 Noções de Filosofia da Educação, vol. 1, p.41.
19 Idem, p. 42.
20 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.50-53
21 Noções de Filosofia da Educação, Theobaldo Miranda Santos, vol. 1, p.68 . São Paulo, 1969.
22 Idem, nota de rodapé, p.68.
“Reflexo fiel do ritmo espiritual e da concepção de vida de cada época, a pedagogia atual é bem o atestado vivo e eloqüente da desorientação do pensamento filosófico moderno. Daí a multiplicidade desconcertante de tendências e posições da pedagogia moderna. [...] Se analisarmos, porém, os fundamentos metafísicos dessas múltiplas correntes pedagógicas, chegaremos à conclusão que elas podem ser filiadas a dois grandes sistemas filosófico-pedagógicos: o Naturalismo e o Antinaturalismo Pedagógico”. 23
1 - NATURALISMO PEDAGÓGICO:
“O fundamento filosófico do Naturalismo Pedagógico contemporâneo é a negação explícita ou implícita dos valores transcendentes e a consideração do homem e do universo como as únicas realidades existentes [...] e vem dominando o pensamento ocidental desde o Renascimento (ainda que suas raízes mergulhem mais longe) até os nossos dias, através de cinco grandes movimentos filosóficos e culturais: Neo-Humanismo Pagão, Realismo, Racionalismo, Idealismo e Cientificismo (Positivismo e Evolucionismo). Foram, portanto precursores do Naturalismo Pedagógico contemporâneo RABELAIS, BACON, DESCARTES, ROUSSEAU, KANT, FICHTE, HEGEL, PESTALOZZI, FROEBEL, HERBART, COMTE e SPENCER. Uma filosofia antiespiritualista da vida é, assim, a base metafísica do Naturalismo Pedagógico. Mas outros fatores favoreceram sua eclosão: [...] o progresso das ciências experimentais, o desenvolvimento da indústria, a importância crescente da máquina e a influência cada vez maior das doutrinas políticas sobre o terreno da educação.” 24
“Como obra da natureza, sou um animal perfeito. Como obra de mim mesmo, esforço-me pela perfeição. Como obra da espécie, procuro me tranqüilizar num ponto sobre o qual a perfeição de mim mesmo não é possível. A natureza fez a sua obra inteira, assim também faze a tua. Reconhece-te a ti mesmo e constrói a obra do teu enobrecimento sobre a consciência profunda de tua natureza animal, mas também com a consciência completa da tua força interior de viver divinamente no meio dos laços da carne”. (Trechos extraídos do Livro “Minhas indagações sobre a marcha da natureza no desenvolvimento da espécie humana” , Pestalozzi , 1797). 25
Por representantes de diversas subcorrentes do Naturalismo Pedagógico, vamos encontrar, entre muitos outros, grande nomes como: BALDWIN, STANLEY HALL, PIAGET, PAVLOV, JUNG, FREUD, Marx, durkheim.
2 - ANTINATURALISMO PEDAGÓGICO:
“Se o Naturalismo Pedagógico subordina Deus ao homem e este à natureza, o Antinaturalismo Pedagógico subordina a natureza ao homem e este a Deus. O fundamento metafísico do Antinaturalismo Pedagógico e, portanto, de uma concepção espiritualista da vida, é a afirmação da existência
_________________________
23 Idem, p. 82.
24 Idem, p. 83.
25 Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Heinrich_Pestalozzi. Acesso em 27/03/2011.
de valores absolutos e eternos, é a consideração do homem como dotado de uma alma livre e imortal. Entre os fatores que favorecem o surgimento do Antinaturalismo Pedagógico em nossos dias, se destacam: o fracasso do absolutismo científico (positivista ou evolucionista), o desprestígio das soluções relativistas do idealismo kantiano, o renascimento da metafísica e a irradiação crescente da religião cristã. Podemos, entretanto, discernir no antinaturalismo pedagógico, duas grandes tendências: uma transcendentalista e outra imanentista. A primeira é constituída pelas correntes pedagógicas que admitem a existência de valores sobrenaturais e de realidades transcendentes. A segunda é representada pelas correntes que, embora não admitindo a existência de realidades supraterrenas, afirmam com tanta insistência e vigor a primazia do espírito, da personalidade, da vida e da cultura que constituem como que um impulso ao transcendente. 26
“Entre os transcendentalistas, podemos assinalar duas tendências distintas: a pedagogia espiritualista cristã e a pedagogia espiritualista acristã. Entre os educadores cristãos, ocupam lugar de relevo os nomes de SPALDING, WILLMANN, PAULSEN, FOERSTER, KIDD, MERCIER, DE HOVRE, BOPP, BEHN, PETER WUST, EGGERDOFEER, ETTLINGER, GUARDINI, GUARDINI SCHOROETEL, BUTLER e SHIELDS. Destacam-se entre os educadores espiritualistas acristãos: BOUTROUX, BERGSON, EUCKEN, DILTHEY, MAX SCHELER, SPANN e SPEARMAN. Entre os imanentistas, distinguem-se numerosas subcorrentes, dentre as quais podemos assinalar: a culturalista, com RICKERT, SPRANGER, LITT e NOHL; a fenomenológica, HUSSERL, GEIGER, PFÄNDER e VIALLETON; a existencialista, com HEIDEGGER e KARL JASPER; a neovitalista, com DRIESCH, UEXKÜLL e VIALLETON; a finalista ou hórmica, com MCDOUGALL; a caracterológica, com LUDWIG KLAGES e HANS PRINSHORN. Eis, pois assinaladas, de maneira mais que esquemática, as grandes diretrizes da pedagogia no século XX. Como acabamos de verificar, todas essas múltiplas correntes, tendências e escolas, se fundamentam explícita ou implicitamente, numa concepção filosófica do homem, da vida e do universo”.27
3 – CONCLUSÃO:
“A primeira conclusão que logo se impõe ao nosso espírito é a da ilusão dos que ainda acreditam, candidamente, numa educação inteiramente neutra ou numa pedagogia exclusivamente técnica. Ora, a educação é uma atividade essencialmente normativa, que se processa sempre no sentido de determinados fins. Educar é formar de acordo com um ideal”. 28
____________________________
26 Noções de Filosofia da Educação, vol. 1, p.86. Theobaldo Miranda Santos, São Paulo, 1969.
27 Idem.
28 Idem, p. 86-87.
IV – ANTROPOLOGIA PEDAGÓGICA ESPÍRITA: O EDUCANDO.
1 – Referências Evangélicas e Doutrinárias:
“Não é o discípulo mais que o mestre”. (Mat. 10,24.)
“O discípulo não é superior ao seu mestre, mas todo o que for perfeito será como seu mestre”. (Luc. 6, 40)
“DEIXAI QUE VENHAM A MIM AS CRIANCINHAS”. (Mat. 5, 8)
“Profundas em sua simplicidade, essas palavras não continham um simples chamamento dirigido às crianças [...] JESUS chamava a si a infância intelectual da criatura formada: os fracos, os escravizados e os viciosos [...] Deixai vir a mim todos os que, tímidos e débeis, necessitam de amparo e consolação. Deixai vir a mim os ignorantes, para que eu os esclareça. Deixai vir a mim todos os que sofrem, a multidão dos aflitos e dos desafortunados.”
(EE – VIII, 18e19)
“Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos, a mim o fareis”. (Mat. – 25:40)
“Aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe”. (Mat. – 18:1-3)
2 – O QUE É O EDUCANDO?
“O educando é o único fator na composição do fato educativo cuja presença nunca foi questionada”.29 Esse termo tem se destacado entre outros (aluno, discípulo, aprendiz, etc.) por exprimir “o dinamismo da educação; dá a idéia de um processo em realização e não de um processo acabado”.30
O conceito que se fizer do educando refletirá a compreensão que se tem sobre o homem e seu destino. Assim, cada posição filosófica o apreende de forma peculiar, com determinados atributos e características, o que pode variar muito e mais: determinar o papel do educador, o método, a disciplina, o currículo, a instituição escolar e a própria finalidade da educação conforme seu ponto de vista.
Dentre as várias correntes de pensamento existentes citadas e analisadas por Ney Lobo, destacamos: a que compreende o homem como simples animal, sem liberdade e sem vida moral e lhe atribui uma bondade congênita (Naturalismo Pedagógico); a que, ao contrário, o compreende como união substancial entre corpo físico e alma espiritual, possuidor de uma natureza decaída (pecado original) e principal agente de sua própria educação (Supernaturalismo Pedagógico); a que o vê como animal racional, dotado de elevada dignidade pessoal, não decaído e, ocupando papel central no universo, possuidor de um fim em si mesmo e não para a vida eterna ou para o Estado (Humanismo Pedagógico). Ainda temos os que o crêem herdeiro da cultura (Culturalismo Pedagógico); ou como ser preponderantemente espiritual, educador de si mesmo e submisso ao Estado (Idealismo Pedagógico). Encontramos também os que o pensam produto da nação e herdeiro do capital nacional (Nacionalismo Pedagógico); os que o vêem como sujeito só de direitos (Individualismo Pedagógico) ou, ao contrário, produto do meio social, tendo a comunidade como substrato da vida do espírito (Socialismo Pedagógico).
____________________________
29 Filosofia Espírita da Educação e suas Consequencias Pedagógicas e Administrativas, vol. 1, p.94.
30 Noções de Pedagogia Científica, p.70. Theobaldo Miranda Santos- Cia Editora Nacional, SP, 1963.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Adeus ao Professor Ney Lobo
O Professor Ney Lobo, 93 anos, que exerceu a função de
Diretor do Colégio Lins de Vasconcelos (atualmente Colégio Opet) por
mais de uma década e autor de diversas obras de educação e filosofia,
faleceu na noite do dia 28 de agosto. Formado em filosofia pela
Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Professor Ney Lobo
foi um dos mais importantes educadores de Curitiba, tendo sido o
fundador da Cidade Mirim, na década de 70. Apaixonado pelo projeto
pedagógico, que estimula à cidadania e o empreendedorismo, Ney Lobo
fez questão de participar, em abril desse ano, da cerimônia de posse
dos políticos mirins, que vão administrar a Cidade Mirim Opet até o
início do ano letivo de 2013.
Homenagem a Ney Lobo
Por Beto Freitas, espiritualista
Faleceu O professor Ney Lobo, um dos grandes pioneiros da Pedagogia
Espírita no Brasil. Submetido a uma angioplostia, aos 93 anos, não
resistiu à cirurgia. Ney Lobo dirigiu no final dos anos 60 e início dos
70, uma fantástica experiência pedagógica no Instituto Lins de
Vasconcellos, tendo criado uma cidade mirim, onde as crianças elegiam
seu prefeito, tinham uma agência bancária, comércio, ruas, casa de
oração – para que pudessem exercitar de forma prática a cidadania. Ney
Lobo manteve com a ABPE (Associação Brasileira de Pedagogia Espírita)
sempre as mais cordiais e amistosas relações, e marcou presença em todos
os congressos que fizemos (2004, 2006, 2008, 2010).
É Autor de importantes obras sobre Educação e Espiritismo (inclusive
um livro assim chamado), “Filosofia Espírita da Educação” (5 volumes),
“Escola Espírita” entre outros. Já há vários anos estava trabalhando num
livro em vários volumes também, intitulado “Pedagogia da
Espiritualidade”, do qual apresentou algumas conclusões em nosso 4º
Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita e 1º Congresso Internacional
de Educação e Espiritualidade, em setembro de 2010. Querido Prof. Ney
Lobo, leve nosso sentimento de gratidão, nosso carinho e nossa vibração
de paz! Dora Incontri e Equipe da ABPE.
[fonte: http://www.opet.edu.br/opet-press/?p=8138]
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